O rendimento dos Treasuries de 30 anos subiu para 5,31% nesta segunda-feira (17), avanço de cinco pontos-base, ou 0,05 ponto percentual, e atingiu o maior nível desde 2007. A alta reflete a preocupação dos investidores com déficits fiscais crescentes nos Estados Unidos, inflação ainda elevada e uma oferta maior de títulos longos justamente quando a demanda tradicional por esses papéis perde força.
Por que o juro longo americano disparou
Quando o governo emite mais dívida, precisa oferecer uma remuneração maior para atrair compradores. Os déficits anuais dos Estados Unidos estão próximos de US$ 2 trilhões, ampliando o estoque da dívida e a necessidade de novas captações. Ao mesmo tempo, empresas têm recorrido ao mercado para financiar o aumento dos investimentos em inteligência artificial, competindo pela poupança disponível.
O receio de inflação persistente também eleva o prêmio exigido pelos investidores. O índice de preços ao consumidor americano subiu 3,4% em julho na comparação anual, ainda bem acima da meta de 2% do Federal Reserve, que permanece superada há cinco anos. Com inflação elevada, cresce o risco de que os juros básicos fiquem altos por mais tempo e reduzam o retorno real de um título prefixado longo.
Leilões mostram o custo maior para o Tesouro dos EUA
A pressão foi reforçada por um leilão de US$ 25 bilhões em títulos de 30 anos realizado na semana passada. Os papéis foram vendidos a uma taxa de 5,216%, o maior rendimento para uma operação desse tipo desde 2001. O resultado sinalizou que o governo precisa pagar mais para financiar sua dívida de longo prazo.
O movimento também alcançou os títulos de dez anos. O rendimento desses papéis subiu mais três pontos-base na segunda-feira, para cerca de 4,72%, depois de um leilão que registrou o maior custo de financiamento desde 2007. Canadá e mercados europeus também registraram alta nos juros longos, indicando um movimento mais amplo, e não apenas uma reação isolada nos Estados Unidos.
Dados mais fracos não conseguiram derrubar os juros longos
Indicadores recentes até sugerem menor necessidade de novas altas dos juros básicos pelo Fed. Um índice de inflação subjacente desacelerou na semana passada, o mercado de trabalho perdeu vagas de forma inesperada em julho e as vendas no varejo tiveram a maior queda em mais de um ano.
Mesmo assim, os investidores continuam cobrando mais para manter títulos de prazo elevado. A resistência do Fed em apertar a política monetária diante da inflação acima da meta alimenta dúvidas sobre o controle dos preços. O próximo dado importante será o índice de gastos com consumo pessoal, o PCE, referência preferida do banco central americano, previsto para 26 de agosto.
Curva de juros mais inclinada aumenta a incerteza
A diferença entre os rendimentos dos títulos de dois e 30 anos chegou a 114 pontos-base, o maior nível desde abril. Essa distância indica que o mercado vê condições diferentes para o curto e o longo prazo: os dados mais fracos podem limitar os juros básicos, mas os riscos fiscais, inflacionários e de oferta pressionam as taxas mais longas.
Para o governo do presidente Donald Trump, o movimento é especialmente incômodo. Autoridades haviam defendido que as políticas fiscais reduziriam os juros ao controlar gastos e inflação. Até agora, porém, os rendimentos continuam subindo, elevando custos de hipotecas e outros empréstimos. O choque nos preços do petróleo provocado pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã acrescenta uma fonte adicional de pressão inflacionária.
O que o movimento significa para investidores e consumidores
O rendimento de um título e seu preço se movem em sentidos opostos: quando o mercado exige juros maiores, os papéis já emitidos perdem valor. A alta dos Treasuries, considerados referência global, tende a pressionar outros ativos de renda fixa, reduzir o apetite por investimentos mais arriscados e aumentar o custo de captação de empresas e governos.
No Brasil, o efeito pode aparecer por meio de fluxos internacionais, do câmbio e das condições de financiamento. Para quem investe, a principal variável a acompanhar é se a alta será temporária ou continuará alimentada por déficits, inflação e novas emissões. Para consumidores e trabalhadores, juros globais persistentemente elevados podem dificultar crédito e investimentos produtivos, enquanto a trajetória do petróleo e do dólar pode influenciar o custo de produtos e serviços.
Impacto para a sociedade
A alta dos juros americanos pode encarecer o financiamento no mundo, pressionar o dólar e aumentar o custo de crédito para empresas e governos, inclusive no Brasil. Se o movimento persistir, também pode afetar investimentos, preços de produtos importados e as condições para a queda dos juros domésticos.
