O JPMorgan fez movimentos opostos para dois grandes bancos: elevou o Bradesco de neutro para compra e rebaixou o Banco do Brasil para venda. A mudança destaca a avaliação de que a recuperação do Bradesco já aparece nos resultados, enquanto a estatal ainda enfrenta obstáculos — apesar da forte alta recente de suas ações. Os novos preços-alvo são de R$ 26 para BBDC4 e R$ 23 para BBAS3.
Bradesco ganha confiança com sinais de recuperação
O novo preço-alvo do Bradesco representa potencial de valorização de 19% em relação ao fechamento anterior à revisão. O banco negociava a 1,2 vez seu valor patrimonial — uma comparação entre o preço da ação e o valor contábil dos ativos líquidos —, enquanto o JPMorgan considera justo um múltiplo de 1,5 vez.
A análise aponta melhora da rentabilidade nos últimos trimestres, redução do custo de risco e avanço das margens. O retorno sobre o patrimônio líquido (ROE), indicador que mede quanto o banco lucra em relação ao capital dos acionistas, é estimado em 15,9% em 2026, 16,1% em 2027 e 16,8% em 2028. O lucro líquido ajustado projetado sobe de R$ 28,1 bilhões neste ano para R$ 34,8 bilhões em 2028.
Banco do Brasil enfrenta pressão no crédito rural
Para o Banco do Brasil, o alvo subiu apenas de R$ 22 para R$ 23, mas a recomendação passou de neutra para venda. Considerando o fechamento anterior, de R$ 26,30, o JPMorgan vê potencial de queda de 13%. Na terça-feira (6), por volta das 14h12, BBAS3 recuava 6,19%, a R$ 24,67; no mesmo horário, BBDC4 avançava 3,98%, a R$ 22,71.
A cautela com a estatal está ligada à piora da qualidade dos empréstimos ao agronegócio, que pode pressionar lucro, rentabilidade e dividendos. O banco avalia que 2027 ainda será difícil e que uma recuperação mais consistente deve aparecer apenas em 2028. Suas projeções apontam ROE de 8,7% em 2026 e lucro ajustado de R$ 16 bilhões, abaixo dos R$ 20,7 bilhões estimados para 2025. Para 2028, a previsão de lucro é de R$ 27,1 bilhões.
Rali e juros menores mudam as contas do setor
O rebaixamento ocorre após uma valorização expressiva de BBAS3: o JPMorgan calcula alta de cerca de 16% desde a sexta-feira anterior à análise e de 50% desde 15 de agosto. Na avaliação da instituição, a cotação avançou antes de a operação mostrar uma recuperação equivalente. A exposição ao agronegócio também limita, segundo os analistas, o benefício potencial de uma queda da Selic.
O banco reduziu em cerca de 1,5 ponto percentual sua premissa de custo de capital próprio, taxa usada para estimar o retorno exigido pelos acionistas. A mudança acompanha a queda dos juros brasileiros de dez anos, de aproximadamente 14,4% para 13%, e explica entre 15% e 20% dos aumentos de preços-alvo. Juros longos menores reduzem o desconto aplicado a lucros futuros, o que tende a elevar o valor calculado para as ações.
Itaú mantém avaliação positiva e mercado de capitais ganha projeções
O Itaú permaneceu com recomendação de exposição acima da média do mercado, e seu preço-alvo subiu de R$ 51 para R$ 60. O novo valor representa potencial de alta de 21% ante o fechamento anterior à revisão. Já para XP e B3, o JPMorgan aumentou entre 8% e 12% as estimativas de lucro de 2027; para o BTG Pactual, a revisão foi de 4% a 5%.
As projeções para essas empresas refletem o volume elevado de negociações no mercado à vista, que chegou a R$ 103 bilhões de volume médio diário, cerca de três a quatro vezes o nível anterior à eleição, além de uma perspectiva mais favorável para os juros. O movimento pode beneficiar negócios ligados à atividade na Bolsa, mas não elimina os riscos específicos de cada banco ou empresa.
O que acompanhar após a revisão
Para quem investe, a mudança do JPMorgan ilustra como uma mesma queda dos juros pode levar a avaliações diferentes: o custo de capital menor favorece os preços estimados, mas as perspectivas de crédito e rentabilidade também pesam. No Banco do Brasil, a evolução dos empréstimos rurais e dos resultados será importante para avaliar se a recuperação prevista para 2028 ganha forma; no Bradesco, o desafio é sustentar a melhora já observada.
As projeções são estimativas de analistas, não garantias de desempenho. As cotações registradas durante o pregão de 6 de outubro refletem a reação inicial dos investidores à revisão, enquanto os próximos resultados dos bancos poderão oferecer novos sinais sobre a trajetória de lucro, crédito e rentabilidade.
