O Japão elevou o nível de alerta sobre o iene nesta quinta-feira (3), reacendendo entre investidores o temor de uma nova intervenção no mercado de câmbio. O vice-ministro das Finanças, Atsushi Mimura, afirmou estar em “estado de alerta elevado” e disse não estar “nem satisfeito nem tranquilo” com os movimentos recentes da moeda, após a forte valorização do iene diante do dólar.
O que fez o iene ganhar força diante do dólar
Na quarta-feira (2), o iene atingiu a máxima intradiária de 158,22 ienes por dólar, com alta de 1,2%. Na prática, quanto menor a cotação do dólar em ienes, mais forte está a moeda japonesa. O movimento aumentou as especulações sobre uma possível atuação do governo para conter oscilações consideradas excessivas.
O mercado, porém, atribuiu a alta principalmente ao aumento das apostas de que o Banco do Japão (BoJ) elevará os juros ainda em setembro. A taxa japonesa está em 1% ao ano, o maior nível em 31 anos, e parte dos operadores já considera um aumento de 0,25 ponto percentual, para 1,25%, na reunião marcada para 18 de setembro.
Por que uma nova intervenção voltou ao radar
Uma intervenção cambial ocorre quando o governo compra ou vende moeda estrangeira para influenciar a cotação. No caso japonês, a compra de ienes com reservas em dólar tende a reduzir a oferta da moeda local no mercado e pode fortalecer o iene, especialmente quando há movimentos rápidos e desordenados.
Operadores observaram que não houve desorganização nos sistemas eletrônicos de negociação no momento da alta da moeda, um sinal que costuma acompanhar intervenções oficiais. Ainda assim, a comunicação das autoridades pode ter sido suficiente para aumentar a sensação de urgência entre investidores que mantêm posições apostando na alta do dólar contra o iene.
O Ministério das Finanças do Japão informou que as intervenções realizadas no último mês consumiram um valor recorde de 15,4 trilhões de ienes, equivalentes a US$ 96,5 bilhões, para apoiar a moeda japonesa. O iene opera próximo do menor nível em 40 anos.
Como os juros do BoJ afetam o câmbio
Juros mais altos tornam ativos denominados em iene relativamente mais atraentes e podem estimular a repatriação de recursos aplicados no exterior. Esse mecanismo tende a fortalecer a moeda, embora seu efeito dependa também das decisões do Federal Reserve e da percepção sobre a economia japonesa.
O mercado já precifica uma chance de 50% de o Fed elevar os juros em 0,25 ponto percentual na reunião de 16 de setembro. A taxa americana está entre 3,50% e 3,75% ao ano e subiria para a faixa de 3,75% a 4% caso o ajuste ocorra. Juros americanos mais altos podem limitar a valorização do iene, ao manter o dólar atrativo.
O que as autoridades japonesas sinalizaram
A ministra das Finanças, Satsuki Katayama, afirmou recentemente que uma taxa de câmbio ordenada do iene é essencial para a estabilidade dos mercados financeiros globais. Ela também destacou a importância da continuidade da coordenação entre Japão e Estados Unidos.
Para o estrategista Chris Turner, do ING, os dois países podem estar satisfeitos com o movimento recente dos preços e interessados em reforçar a pressão sobre investidores que apostam na alta do dólar contra o iene acima de 160 e do euro contra o iene acima de 186.
O que observar até a reunião de setembro
Uma queda mais consistente do dólar ante o iene provavelmente exigirá uma postura mais dura do Banco do Japão, além de medidas para estimular o investimento doméstico no país. Até a decisão do dia 18, o mercado deve monitorar novas declarações oficiais, a velocidade das oscilações e os sinais sobre os juros japoneses e americanos.
Para quem investe, o episódio mostra que o câmbio pode reagir tanto a decisões econômicas quanto à comunicação dos governos. Para empresas e consumidores, uma eventual valorização mais duradoura do iene pode alterar preços e fluxos comerciais, mas o efeito dependerá da persistência do movimento e de sua repercussão sobre as demais moedas.
