A deflação de 0,32% no IPCA de agosto pode abrir espaço para um corte de juros na próxima reunião do Copom, mas a melhora foi concentrada em fatores temporários. A avaliação de economistas é que câmbio, petróleo e clima podem voltar a pressionar os preços, levando a inflação para acima do teto de 4,5% da meta no fim de 2026. Em 12 meses, o índice desacelerou de 4,44% em julho para 4,22% em agosto.

Energia e passagens explicam boa parte da deflação

O principal alívio veio do grupo Habitação, que recuou 1,87% em agosto. A energia elétrica residencial caiu 7,63% por causa de um crédito pontual do Bônus de Itaipu, que retirou 0,33 ponto percentual do IPCA. Como o benefício não deve se repetir nos próximos meses, seu efeito sobre a inflação é considerado passageiro.

Transportes também ajudaram, com queda de 0,86%. As passagens aéreas recuaram 13,17%, enquanto gasolina, diesel e etanol caíram 0,59%, 0,80% e 3,95%, respectivamente. A alimentação e bebidas diminuiu 0,34%, influenciada pela terceira queda seguida da alimentação no domicílio, que baixou 0,61%, com recuos expressivos de batata, cenoura, cebola e tomate.

Indicadores subjacentes ainda mostram pressão

O resultado cheio não eliminou sinais de inflação persistente. Os serviços subjacentes, que excluem itens mais voláteis e ajudam a medir tendências, acumulam alta de 4,98% em 12 meses. Já os serviços intensivos em trabalho sobem 7,18%, patamar elevado para uma inflação convergente à meta.

O grupo Despesas Pessoais avançou 1,30% em agosto, principalmente após o aumento de aproximadamente 20% nos cigarros, provocado pelo reajuste do IPI. Os bens industriais subiram 0,43%, enquanto carnes, consertos de automóveis, cabeleireiros e manicures também registraram pressão.

Câmbio, clima e petróleo entram no radar

A perspectiva para os próximos meses é de retomada da inflação, especialmente nos alimentos. O fenômeno climático El Niño pode afetar a oferta de produtos in natura, enquanto a alta esperada das proteínas no último trimestre tende a alcançar outros itens da cesta e alguns serviços.

O mercado de trabalho aquecido pode manter a demanda e dificultar uma desaceleração mais ampla dos serviços. Ao mesmo tempo, uma eventual desvalorização do real encarece produtos importados e insumos, transmitindo pressão para os preços domésticos. O petróleo também permanece entre os fatores de risco para combustíveis e custos de transporte.

Corte da Selic ganha força, mas ritmo preocupa

A leitura favorável do IPCA reforçou a expectativa de redução de 0,25 ponto percentual na Selic na reunião de setembro. A desaceleração da atividade e a inflação mensal negativa dão mais segurança ao Banco Central para iniciar ou manter um ciclo de cortes, mas a resiliência dos serviços, os riscos eleitorais e o clima deixam o balanço de riscos inclinado para a alta.

O Inter projeta que a Selic mantenha o ritmo de redução nas reuniões seguintes e termine 2026 em 13,25%. A XP também estima a taxa básica em 13,25% no fim do ano, mas prevê IPCA de 5% em 2026 e 4,2% em 2027. A projeção para este ano, portanto, supera o teto de 4,5% da meta.

O que observar no bolso e nos investimentos

Uma Selic menor tende a reduzir o custo de empréstimos e financiamentos gradualmente, embora o repasse dependa dos bancos e do risco de cada operação. Para quem investe, aplicações de renda fixa atreladas à taxa básica passam a oferecer remuneração menor, enquanto a perspectiva de juros mais baixos pode favorecer ativos de maior risco, como ações, desde que os demais riscos permaneçam controlados.

Para consumidores e trabalhadores, a trajetória dos alimentos, da energia e dos combustíveis será decisiva. O próximo passo será acompanhar se a deflação de agosto se repete sem os descontos pontuais ou se o câmbio, o petróleo e o clima recolocam a inflação acima do limite da meta.

Impacto para a sociedade

A queda do IPCA reduz temporariamente o custo de vida, mas parte do alívio veio de descontos pontuais na conta de luz e de alimentos que podem voltar a subir. Câmbio, combustíveis e clima podem pressionar preços nos próximos meses, enquanto uma eventual redução da Selic tende a baratear o crédito, mas também diminui o rendimento de aplicações atreladas aos juros básicos.