Marcela Rocha, da Avenue, defendeu no Suno Invest 2026 que investir no exterior não se resume a buscar proteção contra a alta do dólar. Para a especialista, comprar ativos brasileiros negociados em moeda americana pode apenas trocar a moeda da carteira, sem reduzir a concentração em empresas e riscos ligados ao Brasil.

Dolarizar a carteira não é o mesmo que diversificar

A diversificação internacional ocorre quando o investidor distribui recursos entre diferentes países, setores, moedas e fontes de retorno. A simples conversão do patrimônio para dólares, por outro lado, pode manter praticamente intacta a exposição à economia brasileira.

“Você não está diversificando internacionalmente, você está dolarizando”, afirmou Marcela. A diferença é relevante porque uma carteira concentrada no Brasil continua sujeita a juros domésticos, inflação, atividade econômica, regras locais e oscilações do real, mesmo que parte dos ativos esteja registrada no exterior.

ADRs de empresas brasileiras mantêm riscos domésticos

Um exemplo são os ADRs, recibos negociados no exterior que representam ações de companhias de outros países. Ao comprar um recibo da Petrobras ou da Vale em dólares, o investidor ganha exposição cambial, mas continua ligado a empresas cujos resultados dependem principalmente do Brasil, das commodities e das decisões tomadas no país.

Uma crise doméstica pode pressionar essas companhias mesmo quando seus papéis são negociados em Nova York. Receitas em dólar ou listagem internacional não eliminam fatores como regulação brasileira, custos em reais, tributação e condições do mercado local.

O papel do dólar vai além da cotação do dia

O dólar tem uma função conjuntural e outra estrutural para quem investe. No curto prazo, sua cotação reage a juros nos Estados Unidos, atividade econômica, política monetária e acontecimentos internacionais. Por isso, a moeda pode subir ou perder força conforme mudam os fluxos de capital e as perspectivas para a economia global.

Na dimensão estrutural, o dólar continua sendo a principal moeda de reservas, comércio e mercados financeiros. Dados do Federal Reserve mostram que ele representava 58% das reservas cambiais oficiais divulgadas em 2024, enquanto o euro respondia por 20%. Marcela afirmou que ainda não existe um substituto evidente para a moeda americana, embora isso não signifique valorização contínua.

Mercados estrangeiros ampliam setores disponíveis

O Brasil representa uma parcela pequena do mercado de capitais global. A exposição a outros países pode permitir acesso a segmentos pouco representados na Bolsa brasileira, como tecnologia, biotecnologia, infraestrutura digital e diferentes ramos da indústria.

A lógica é combinar economias que não reajam da mesma maneira aos mesmos eventos. Assim, uma desaceleração no Brasil, uma mudança nos juros locais ou uma crise específica de determinado setor não necessariamente afetará todos os ativos da carteira com a mesma intensidade.

Como avaliar a parcela internacional da carteira

No painel, Marcela recomendou tratar a exposição internacional como parte estrutural do planejamento, considerando objetivos, prazo e necessidade de liquidez, e não apenas como uma aposta sobre a próxima alta do dólar. A parcela fora do país pode incluir ações, renda fixa, fundos e outros instrumentos, cada um com riscos próprios.

Entre esses riscos estão a variação cambial, a volatilidade dos mercados, a tributação, os custos de remessa e as regras do país onde o investimento é realizado. Para o investidor, a questão central passa a ser a combinação entre moedas, mercados e fontes de retorno. A decisão deve considerar o conjunto da carteira e os objetivos pessoais, enquanto os próximos movimentos dependerão das condições econômicas no Brasil e no exterior.