A combinação de inflação americana sem surpresas e novas formas de financiar a expansão da inteligência artificial deu força às bolsas dos Estados Unidos na semana passada. O movimento ajudou o S&P 500 e o Nasdaq a alcançar a terceira semana consecutiva de ganhos, enquanto Intel e Nvidia se destacaram ao apresentar estratégias para ampliar o investimento em chips e infraestrutura de computação.
Inflação abriu espaço para o Federal Reserve esperar
O índice de preços ao consumidor dos Estados Unidos subiu 0,1% em julho, em linha com as estimativas, e a inflação acumulada em 12 meses desacelerou para 3,4%. No dia seguinte, o índice de preços ao produtor ficou estável no mês, abaixo da alta de 0,2% esperada pelos economistas. Em 12 meses, o indicador registrou avanço de 4,7%.
Os números sugeriram que a inflação continua acima da meta de 2% do Federal Reserve, mas não voltou a acelerar de forma inesperada. Com isso, os investidores reduziram a preocupação de que o banco central americano precise elevar os juros na reunião de setembro. A probabilidade de manutenção da taxa passou a ser estimada em 67% no fim da semana, contra 55% uma semana antes.
Esse movimento também pressionou os rendimentos dos títulos do Tesouro americano para baixo. Quando os juros projetados diminuem, ações tendem a ganhar apoio porque o valor presente dos lucros futuros aumenta e os títulos de renda fixa passam a oferecer uma competição relativamente menor por recursos.
Intel transforma captação em aposta na inteligência artificial
A Intel anunciou inicialmente uma oferta de US$ 15 bilhões em ações, o que provocou uma queda de 4% nos papéis na segunda-feira. Diante da forte demanda, a empresa ampliou a operação para US$ 20 bilhões no dia seguinte. A captação fornece recursos para aumentar a capacidade de fabricação de semicondutores, uma atividade que exige investimentos elevados.
O mercado interpretou o movimento como uma demonstração de confiança na demanda futura por seus produtos ligados à inteligência artificial. Essa percepção foi reforçada quando o presidente-executivo Lip-Bu Tan e um familiar concordaram em comprar, juntos, US$ 12 milhões em ações da própria oferta.
O sinal dado aos investidores é que a administração está disposta a colocar capital próprio no projeto. As ações da Intel terminaram a semana com alta aproximada de 1%, enquanto a fabricante de memórias Micron avançou cerca de 11% no mesmo período, beneficiada pelo fortalecimento da tese de expansão da infraestrutura de IA.
Nvidia tenta transformar chips em ativos financiáveis
A Nvidia anunciou acordos com seis grandes gestoras e instituições financeiras — Apollo, Blackstone, BlackRock, Brookfield, KKR e Goldman Sachs — para criar plataformas de financiamento destinadas aos clientes que compram seus equipamentos. A iniciativa prevê uma capacidade de financiamento de até US$ 500 bilhões.
A proposta é tratar as unidades de processamento gráfico, conhecidas como GPUs, não apenas como componentes tecnológicos que perdem valor rapidamente, mas como infraestrutura capaz de gerar receita durante vários anos. Assim, os fluxos de caixa dos centros de computação poderiam servir de base para empréstimos e outros investimentos.
Resultados da CoreWeave ajudaram a sustentar essa interpretação. O presidente da empresa afirmou que GPUs mais antigas da Nvidia continuam úteis por mais tempo do que alguns investidores esperavam. Se essa durabilidade for confirmada, bancos e fundos podem aceitar financiar uma parcela maior da expansão da computação voltada à IA.
Bolsa bate recorde, mas investidores seguem seletivos
O S&P 500 superou 7.800 pontos pela primeira vez durante o pregão de quinta-feira e encerrou a sessão em recorde. O Nasdaq também acumulou a terceira semana seguida de alta. Na sexta-feira, os dois índices recuaram modestamente, sem apagar os ganhos anteriores.
O Dow Jones destoou e caiu quase 0,6% na semana. As ações da Nvidia subiram aproximadamente 0,5%, enquanto Goldman Sachs terminou estável, apesar de ter participado tanto da operação de financiamento da Nvidia quanto da oferta de ações da Intel.
O que acompanhar depois do rali de Wall Street
O desempenho da semana mostrou que duas forças diferentes sustentaram o mercado: a perspectiva de juros americanos menos pressionados e a entrada de capital financeiro na cadeia da inteligência artificial. A combinação reduz o custo relativo do financiamento e aumenta a capacidade das empresas de construir fábricas, servidores e centros de processamento.
Para quem acompanha investimentos internacionais, o próximo ponto de atenção será saber se a inflação continuará desacelerando sem enfraquecer excessivamente a economia. No setor de tecnologia, a questão central será se a receita gerada pelos centros de computação será suficiente para justificar o endividamento e os aportes necessários. A resposta a essas dúvidas deverá definir se o avanço das ações representa uma tendência sustentável ou apenas mais uma etapa de valorização do tema da IA.
