O IPCA de julho veio acima do esperado, com alta de 0,07%, e o acumulado em 12 meses recuou para 4,44%, voltando para dentro do intervalo de tolerância da meta – que tem teto de 4,5%. O alívio, no entanto, é menor do que parece: a inflação de serviços segue escalando, com alta de 0,54% no mês, acima do consenso de 0,40%. Esse cenário coloca em xeque a possibilidade de novos cortes na Selic, que hoje está em 14% após a última decisão do Copom.
Os números que animaram e os que preocupam
O resultado de julho ficou acima da expectativa do mercado, que projetava algo entre 0,01% e 0,03%. A desaceleração do índice cheio foi puxada pela deflação de alimentos, com queda de 0,67% no grupo alimentação e bebidas, e recuo expressivo de 1,14% na alimentação no domicílio. Itens in natura como tomate (-29,09%), batata-inglesa (-19,59%) e cenoura (-14,41%) puxaram o índice para baixo. Os combustíveis também caíram: gasolina recuou 1,37% e etanol, 2,26%.
Por outro lado, o grupo Habitação acelerou para 0,99%, com salto de 3,09% na energia elétrica residencial, por causa de reajustes de concessionárias em capitais como São Paulo, Porto Alegre e Curitiba, além da manutenção da bandeira amarela. A alimentação fora do domicílio subiu 0,55%, ante 0,15% em junho, e itens como passagens aéreas tiveram alta de 11,67%.
O núcleo de serviços acende o alerta
O que mais preocupa o Banco Central é a resiliência dos serviços, que no acumulado de 12 meses seguem em patamar de 5,85% a 5,90%, incompatível com a convergência da inflação para o centro da meta. O Goldman Sachs destacou que 18 categorias de serviços tiveram variação mensal acima de 0,50%, incluindo transporte por aplicativo (1,87%) e conserto de automóveis (1,41%).
Os núcleos monitorados pelo BC também aceleraram: os serviços subjacentes passaram de 0,22% em junho para 0,42% em julho, e os serviços intensivos em trabalho subiram para 7,29% no acumulado em 12 meses. Para a economista Claudia Moreno, do C6 Bank, essa rigidez indica que a desinflação de curto prazo, concentrada em itens voláteis, é frágil. A economista Olívia Flôres de Brás, da Magno Investimentos, resume: “A fotografia melhorou, mas saiu menos bonita do que o mercado havia encomendado.”
O que a ata do Copom sinaliza
Na ata divulgada hoje, o Comitê de Política Monetária detalhou os argumentos para o corte da semana passada, que levou a Selic para 14%. O texto enfatiza a necessidade de acompanhar de perto os dados de inflação e atividade, sem deixar claro se haverá novos cortes ou uma pausa. Isso dividiu economistas: parte acredita que o BC pode interromper o ciclo de queda se os núcleos persistirem pressionados; outra vê espaço para mais um ajuste, caso a atividade econômica continue desacelerando.
Para o mercado, a mensagem central é de cautela. A inflação acima do esperado em julho, mesmo com o índice acumulado dentro da banda, reforça a tese de que o BC não deve antecipar um afrouxamento mais agressivo. O número “permite comemorar a direção, não decretar a chegada”, como avalia Olívia Flôres de Brás.
O que isso significa para investimentos e consumo
Com a Selic em 14%, a renda fixa segue oferecendo retornos elevados, mas o crédito fica caro, o que tende a frear o consumo e os investimentos. Na bolsa, juros altos tornam as ações menos atraentes em relação à renda fixa, especialmente para empresas que dependem de financiamento ou vendas a prazo. Para o investidor, a dúvida sobre o rumo dos juros aumenta a volatilidade dos ativos e exige atenção aos próximos indicadores de inflação e atividade.
O próximo passo do Copom dependerá dos dados de agosto, especialmente dos núcleos de serviços e da evolução da energia elétrica. Se a pressão continuar, o espaço para novos cortes diminui; se houver alívio, o BC pode retomar as quedas. Por ora, a recomendação implícita é de cautela: o cenário ainda não permite apostar em um caminho único para os juros.
Impacto para a sociedade
A inflação de serviços acelerando significa que o custo de itens como alimentação fora de casa, transporte por aplicativo e consertos tende a continuar subindo, pesando no bolso do consumidor. Com isso, o Banco Central tende a manter os juros altos por mais tempo, o que encarece o crédito e o financiamento de casas, carros e empresas, afetando o consumo e o emprego.
