As importações brasileiras de calçados superaram as exportações pela primeira vez em julho, em um sinal de perda de força da indústria diante do tarifaço dos Estados Unidos e da possibilidade de retomada das compras internacionais sem imposto. O Brasil vendeu US$ 62,4 milhões em calçados ao exterior e importou US$ 66 milhões no mês, segundo dados da Abicalçados com base no Ministério da Indústria. Na prática, o setor registrou um saldo negativo de US$ 3,6 milhões no comércio exterior de calçados.

O que significa a inversão no comércio de calçados

A diferença entre exportações e importações mostra que, em julho, o país comprou mais calçados estrangeiros do que conseguiu vender ao exterior. Esse movimento reduz a contribuição positiva do setor para a balança comercial, que mede a diferença entre o valor exportado e o importado, e indica maior concorrência de produtos fabricados fora do Brasil no mercado doméstico.

O resultado também chama atenção porque ocorreu em um setor tradicionalmente voltado às exportações. A inversão não significa, isoladamente, que toda a indústria perdeu mercado, mas reforça a combinação de dificuldades externas e internas enfrentada pelos fabricantes brasileiros.

Tarifa dos EUA encarece o produto brasileiro

Os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de calçados. A tarifa adicional de 37,5%, imposta pelo governo de Donald Trump em julho, aumenta o preço dos produtos brasileiros para consumidores e distribuidores americanos.

Com a cobrança, o calçado nacional pode perder competitividade diante de fornecedores de outros países. As empresas brasileiras ficam diante de escolhas difíceis: absorver parte do imposto e reduzir sua margem, elevar os preços no mercado americano ou vender menos. Em qualquer desses cenários, a capacidade de exportação e de geração de receita externa fica pressionada.

Fim da taxa das blusinhas amplia a concorrência interna

No mercado brasileiro, a preocupação está na medida provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 12 de maio. O texto zera o imposto de importação de 20% aplicado a compras internacionais de até US$ 50, cobrança criada em 2024 e conhecida popularmente como “taxa das blusinhas”.

Com uma carga menor, produtos estrangeiros comprados por plataformas internacionais tendem a chegar ao consumidor brasileiro em condições mais competitivas. Para a indústria nacional, isso pode significar perda de vendas, especialmente em segmentos de menor preço, além de uma disputa considerada desigual pela Abicalçados.

A associação afirma que a retirada do imposto pode contrariar princípios de igualdade tributária, livre concorrência e proteção ao mercado interno. A entidade também sustenta que a cobrança ajudava a preservar empregos e arrecadação.

Emprego já mostra sinais de enfraquecimento

O setor fechou 1.740 postos de trabalho em junho. O número de empregos diretos caiu para 272.400, estoque 4,2% menor que o registrado em junho de 2025.

A Abicalçados estima que a isenção do imposto federal sobre remessas internacionais possa comprometer 53.900 empregos no setor. Desse total, 18.700 seriam vagas diretas na fabricação, 13.200 estariam na cadeia produtiva e 22.000 corresponderiam ao chamado efeito-renda, ligado ao consumo gerado pelos salários desses trabalhadores.

O que observar nos próximos meses

Os próximos dados de importação, exportação e emprego mostrarão se o resultado de julho foi pontual ou se representa uma mudança mais persistente. A evolução das vendas aos Estados Unidos será particularmente importante, porque o tarifaço afeta justamente o principal mercado externo do setor.

Para quem trabalha na cadeia calçadista, o risco está na combinação de menor demanda externa e maior concorrência doméstica. Para o consumidor, a ampliação das compras internacionais pode trazer mais opções e preços competitivos, mas o efeito sobre a indústria e os empregos dependerá da duração dessas medidas e da capacidade das empresas brasileiras de manter mercado no país e no exterior.

Impacto para a sociedade

A pressão sobre o setor pode afetar empregos, especialmente em regiões onde a fabricação de calçados é uma atividade relevante. Para o consumidor, o fim do imposto sobre compras internacionais de até US$ 50 tende a ampliar a oferta de produtos importados, mas também pode reduzir a competitividade da indústria brasileira e pressionar postos de trabalho.