As importações de aço já atendem a 19% do mercado brasileiro, quase o dobro do patamar histórico de 10%. O avanço amplia a pressão sobre fabricantes nacionais e levou representantes do setor a defender novas medidas de proteção comercial; a discussão também importa para os investimentos previstos para os próximos anos.

Volume importado superou a média pré-pandemia

Em 2025, o Brasil importou 5,7 milhões de toneladas de produtos de aço, ante uma média anual de 2,2 milhões de toneladas nos 20 anos anteriores à pandemia de covid-19. O volume do ano passado ficou mais de 150% acima daquela referência. A comparação mostra a dimensão da mudança em relação ao padrão observado antes da crise sanitária.

A participação de 19% indica quanto do mercado é ocupado por produtos importados, segundo a avaliação apresentada pelo setor. A referência histórica é de 10%. Embora tenha sido observada uma tendência de queda das importações a partir do segundo trimestre de 2026, ela ainda não seria suficiente para aproximar o indicador do nível considerado normal pela indústria.

Setor pede novas barreiras e investigações mais rápidas

Jorge Oliveira, vice-presidente do Instituto Aço Brasil e presidente da ArcelorMittal Brasil, defendeu manter as medidas de proteção existentes e acrescentar mecanismos como exigências de conteúdo local, salvaguardas, cotas mais rígidas e aceleração de investigações de dumping. O termo se refere à venda de produtos importados a preços considerados desleais pelas regras de comércio internacional.

As propostas têm mecanismos diferentes. Cotas limitam a quantidade que pode entrar; salvaguardas podem restringir importações em determinadas circunstâncias; e regras de conteúdo local favorecem o uso de componentes produzidos no país. Investigações de dumping verificam se há prática comercial irregular e podem embasar medidas contra produtos específicos. São defesas que o setor quer ampliar, não medidas cuja adoção tenha sido anunciada.

China aparece como principal fonte de pressão

Oliveira atribuiu a pressão competitiva principalmente à China, cuja produção de aço descreveu como gigantesca. A preocupação, segundo ele, não se limita às siderúrgicas: a concorrência de produtos estrangeiros também pode alcançar outras etapas da cadeia industrial. Como exemplo, citou que veículos importados responderam por quase 18% do mercado brasileiro entre janeiro e julho de 2026.

O dado sobre automóveis se refere a outro segmento e não mede a participação do aço importado. Ele foi usado para ilustrar como a concorrência externa pode aparecer em diferentes partes da indústria. Para o setor siderúrgico, o argumento é que a entrada de aço estrangeiro em proporção maior que a histórica dificulta a disputa das empresas instaladas no Brasil.

Investimentos dependem de melhora na competitividade

O setor projeta cerca de US$ 11 bilhões em investimentos nos próximos quatro anos, mas Oliveira condicionou a continuidade desse plano à melhora da competitividade. A meta apresentada é reduzir a participação das importações para perto de 10%, o patamar histórico. A declaração indica que, para as empresas, a decisão de investir está ligada às condições de concorrência e à eficácia das medidas comerciais.

Para quem trabalha na indústria, consome produtos que usam aço ou acompanha empresas do setor, o ponto prático é que ainda há uma disputa sobre como equilibrar a concorrência com a produção local. Eventuais restrições podem mudar as condições de oferta de aço importado, mas o material não informa efeito já ocorrido sobre preços ou empregos. Os próximos passos dependem da resposta do governo aos pedidos do setor e da evolução das importações nos próximos meses.