A alta do Ibovespa por 12 sessões consecutivas ainda não representa, necessariamente, uma mudança fundamental na Bolsa, avalia Pedro Cutolo, estrategista da One. Para ele, o movimento recente funciona mais como um alívio e continua fortemente condicionado às expectativas para as eleições, o que deixa aberta a possibilidade de novas oscilações até que haja sinais mais concretos sobre a economia e as contas públicas.

Rali recente ainda depende do cenário eleitoral

Na avaliação de Cutolo, os investidores estão trabalhando com um horizonte curto ao interpretar a valorização do índice. A disputa eleitoral passou a influenciar as expectativas para empresas, juros, câmbio e política econômica, mas ainda há muitos acontecimentos pela frente até o fim das eleições.

Esse tipo de movimento pode acelerar a Bolsa porque os preços dos ativos tentam antecipar possíveis mudanças de governo e de orientação econômica. Ao mesmo tempo, enquanto o resultado e as propostas não estão definidos, qualquer pesquisa, declaração ou evento relevante pode alterar as apostas dos investidores e provocar uma reversão rápida.

Fluxo estrangeiro será teste para a alta

Um dos fatores que podem mostrar se a alta ganhou sustentação é o fluxo estrangeiro, isto é, a entrada ou saída de recursos de investidores internacionais na Bolsa brasileira. A presença mais constante desse capital tende a dar maior sustentação aos preços, enquanto um movimento concentrado em poucos pregões pode não ser suficiente para caracterizar uma mudança duradoura.

O interesse dos estrangeiros também depende da percepção de risco do Brasil em comparação com outros mercados. Se os investidores enxergarem melhora nas perspectivas econômicas e fiscais, a Bolsa pode receber mais recursos. Se o risco aumentar, porém, esse fluxo pode diminuir ou mudar de direção, pressionando os ativos.

Questão fiscal deve definir a confiança do mercado

O segundo ponto destacado pelo estrategista é a situação fiscal. O termo se refere à capacidade do governo de controlar receitas, despesas e dívida pública ao longo do tempo. Embora já existam propostas em discussão, Cutolo avalia que esse tema deve se desenvolver de forma mais clara depois das eleições.

A preocupação fiscal influencia a Bolsa porque dúvidas sobre o equilíbrio das contas públicas podem elevar a percepção de risco e afetar juros e câmbio. Juros mais altos aumentam o custo de financiamento das empresas e tornam aplicações de renda fixa relativamente mais atraentes, reduzindo o impulso para ativos de maior risco. Também podem pesar sobre o consumo e o investimento.

Economia de 2027 pode limitar o desempenho

Mesmo que o ambiente eleitoral continue favorecendo o Ibovespa no curto prazo, o cenário para a economia do próximo ano é outro fator de atenção. Cutolo afirma que a atividade pode não ser tão forte quanto o mercado gostaria, o que poderia limitar os resultados das empresas e a disposição dos investidores de manter posições na Bolsa.

Uma economia menos vigorosa tende a afetar a receita e o lucro de companhias, principalmente em setores dependentes de consumo, crédito e investimento. Por isso, a alta do índice não deve ser analisada apenas pelo número de pregões positivos, mas também pela capacidade de o ambiente econômico sustentar os preços ao longo dos próximos meses.

O que observar depois das 12 sessões de alta

Cutolo não descarta a continuidade da valorização, mas afirma que o período ainda é arriscado e sujeito à volatilidade. Em outras palavras, a sequência positiva pode prosseguir, mas não permite concluir que o caminho estará livre de quedas ou que o movimento já se transformou em uma tendência permanente.

Para quem investe, os principais pontos a acompanhar são o comportamento do capital estrangeiro, as propostas para as contas públicas e os sinais sobre o ritmo da economia em 2027. Para trabalhadores e consumidores, os efeitos não são imediatos, mas decisões fiscais e a reação dos juros podem influenciar crédito, emprego e consumo adiante. A definição do cenário eleitoral deve ser o próximo grande teste para a sustentação do rali.