O Ibovespa virou para alta nesta terça-feira (25), mesmo com o petróleo abaixo de US$ 90 por barril e as ações da Petrobras sob pressão, em um movimento apoiado por construtoras e empresas mais sensíveis aos juros. A recuperação ocorre enquanto o fluxo de estrangeiros registra saída mensal de cerca de R$ 21,4 bilhões, o pior nível da série acompanhada, reforçando a avaliação de especialistas de que ainda é cedo para falar em reversão consistente da tendência.
Bolsa avança mesmo com Petrobras no campo negativo
Por volta das 14h11, o Ibovespa subia 0,84%, aos 173.394,85 pontos. Petrobras ON recuava 2,45% e Petrobras PN caía 1,97%, acompanhando a desvalorização do petróleo. A Vale, por outro lado, avançava 1,25% e ajudava a compensar parte da pressão exercida pela petroleira.
A queda da commodity foi associada à expectativa de avanços diplomáticos para encerrar o conflito entre Estados Unidos e Irã e reabrir o Estreito de Ormuz. Petróleo mais barato tende a aliviar a inflação mundial, mas reduz as receitas esperadas por empresas produtoras e, no caso brasileiro, afeta diretamente uma das ações de maior peso no índice.
Juros favoreceram construtoras e empresas de consumo
A alta do índice foi sustentada por ações ligadas ao comportamento dos juros, como Assaí e construtoras. Esses papéis costumam reagir positivamente quando o mercado passa a projetar taxas menores, porque a redução do custo de financiamento melhora as condições para comprar imóveis, consumir e investir em novos projetos.
Na semana passada, o Ibovespa avançou 2,5%, depois de 11 pregões consecutivos de queda em agosto e de uma perda de R$ 306,3 bilhões no valor de mercado das empresas listadas. Na segunda-feira (24), o índice subiu mais 0,86%. Ainda assim, acumulava queda de aproximadamente 3,9% em agosto, segundo o acompanhamento citado pelo Itaú BBA.
Saída de estrangeiros limita a recuperação
O fluxo estrangeiro, que havia ajudado o Ibovespa a subir 10,47% até 31 de julho, mudou de direção em agosto. Até o dia 21, o saldo negativo mensal chegava a R$ 21,4 bilhões, após os investidores retirarem R$ 20,5 bilhões até o dia 18. A liquidez maior do mercado brasileiro, que facilita a entrada de recursos, também amplia o impacto quando os estrangeiros decidem reduzir posições.
Para João Mamede, da AZ Quest, a fuga de capital é consequência da piora da percepção sobre o Brasil, e não a causa original da queda. Em 11 de agosto, o JPMorgan reduziu a recomendação para o país de exposição acima da média para neutra, citando a proximidade do fim do ciclo de cortes de juros, a desaceleração econômica e a deterioração do crédito.
Risco fiscal e eleições continuam no centro do pregão
Os dados mais recentes de atividade e inflação trouxeram algum alívio, mas não foram suficientes para reduzir as taxas de juros de prazo mais longo. A prévia do PIB veio abaixo do esperado e o IPCA de julho ficou dentro da meta, porém os investidores continuam preocupados com a trajetória dos gastos públicos.
O déficit nominal acumulado em 12 meses até junho alcançou R$ 1,38 trilhão, equivalente a 9,99% do PIB. A proximidade das eleições aumentou a sensibilidade dos preços à política econômica, às promessas de gastos e aos efeitos dessas medidas sobre a inflação e a Selic. Para Nicolas Gass, da GT Capital, esse quadro pode manter o fluxo estrangeiro negativo, especialmente nas empresas de maior valor de mercado.
O que observar antes de concluir que a tendência mudou
O Itaú BBA destacou que a alta recente foi impulsionada pelo fechamento da curva de juros, ou seja, pela redução das taxas projetadas para diferentes prazos. Mesmo assim, o banco alertou para o risco de revisões negativas nos lucros: após os balanços do segundo trimestre, a projeção de lucro líquido das empresas foi reduzida para 2,2%, com piora mais forte em materiais básicos e saúde.
A recuperação do Ibovespa, portanto, acontece em meio a sinais mistos: mais de metade das ações subia no pregão, mas Petrobras recuava, os estrangeiros continuavam retirando recursos e o cenário fiscal permanecia pressionado. O mercado deverá acompanhar a evolução das pesquisas eleitorais, das expectativas para os juros e dos preços do petróleo antes de avaliar se o movimento representa apenas uma pausa na queda ou uma mudança mais duradoura.
Impacto para a sociedade
A queda do petróleo pode aliviar custos de combustíveis e ajudar a reduzir pressões sobre a inflação, embora também pese sobre as ações da Petrobras. Já a preocupação com as contas públicas mantém os juros futuros elevados, o que encarece o crédito para famílias e empresas e pode limitar o crescimento da economia.
