O Ibovespa acumulou alta de 7,6% em dólar na semana, o melhor desempenho entre os mercados globais no período, segundo avaliação do Bank of America (BofA). O movimento foi acompanhado por quase R$ 6 bilhões em entradas de capital estrangeiro na B3 nos últimos dez dias, sinalizando uma melhora parcial do fluxo para ativos brasileiros após meses de retiradas.
Fluxo estrangeiro começa a reverter perdas recentes
A entrada de recursos representa uma recuperação apenas parcial. Nos três meses anteriores, os investidores estrangeiros haviam retirado cerca de R$ 20 bilhões da Bolsa brasileira. Assim, mesmo com a melhora observada nas últimas duas semanas, o saldo recente ainda reflete um período prolongado de cautela com o mercado local.
O movimento também não foi acompanhado por uma retomada generalizada dos fundos de ações brasileiros. Esses fundos registraram saída de R$ 0,5 bilhão na semana passada, acima da média semanal de R$ 0,1 bilhão observada no segundo trimestre. Isso indica que a alta do índice teve participação importante de investidores estrangeiros e de operações táticas, e não apenas de uma mudança ampla na percepção dos investidores locais.
Recompra de posições vendidas ajudou a acelerar a Bolsa
Parte da valorização pode ter vindo da chamada recompra de posições vendidas. Nessa operação, investidores que apostavam na queda de determinadas ações precisam recomprá-las para encerrar suas posições quando os preços sobem. Esse movimento tende a intensificar a alta, porque cria uma demanda adicional pelos papéis justamente durante a recuperação.
Desde 18 de agosto, o Ibovespa acumula alta de 14% em termos de retorno total em dólar. No mesmo intervalo, as ações que concentravam mais apostas na queda subiram 19%, enquanto o grupo de posições vendidas consideradas consensuais também avançou 19%. O desempenho sugere que o encerramento dessas apostas teve peso relevante na aceleração recente do índice.
Alta também refletiu posições compradas e expectativa sobre juros
A recuperação, porém, não ficou restrita à reversão de apostas negativas. As ações consideradas posições compradas consensuais, ou seja, papéis que já eram vistos favoravelmente por parte dos investidores, subiram 14% desde 18 de agosto. Isso aponta para uma combinação de fatores, com melhora tanto em ativos que estavam pressionados quanto em empresas já preferidas pelo mercado.
O sentimento ainda é descrito como cauteloso, mas os indicadores técnicos melhoraram marginalmente. Entre os fatores observados está a expectativa de continuidade do processo de flexibilização monetária. Quando os juros caminham para baixo, a renda fixa tende a oferecer retornos menores, o crédito pode ficar menos caro e ações podem ganhar atratividade relativa, embora esse efeito dependa das condições econômicas e dos riscos fiscais e políticos.
Eleições de outubro mantêm risco e oportunidade no radar
O BofA também vê uma opção potencialmente favorável no período que antecede as eleições de outubro. A avaliação não significa que o resultado esteja definido, mas que os preços atuais das ações e dos contratos de opções podem permitir que investidores se posicionem para cenários positivos com risco previamente delimitado.
Ao mesmo tempo, a incerteza continua elevada. A leitura do banco é que o nível atual do Ibovespa embute uma probabilidade percebida baixa para seu cenário otimista. Por isso, a recente alta não elimina a possibilidade de novas oscilações caso mudem as expectativas sobre juros, fluxo estrangeiro ou o ambiente eleitoral.
O que observar depois da alta de 7,6%
Para quem acompanha a Bolsa, os próximos sinais mais importantes são a continuidade das entradas estrangeiras e a capacidade de o mercado sustentar os ganhos sem depender apenas da recompra de posições vendidas. A saída de R$ 0,5 bilhão dos fundos locais também mostra que a melhora ainda não alcançou todos os segmentos do mercado.
A valorização em dólar beneficia a percepção internacional sobre os ativos brasileiros, mas não representa uma garantia de continuidade. O comportamento do Ibovespa seguirá ligado à trajetória dos juros, às decisões dos investidores estrangeiros e às expectativas para as eleições de outubro.
