O Ibovespa acumulou alta de 2,71% na semana, encerrada na sexta-feira (28), interrompendo uma sequência de três perdas semanais. O destaque individual foi a Yduqs (YDUQ3), que avançou 12,33% e liderou os ganhos entre as ações do índice, em meio às tratativas para uma possível combinação de negócios com a Afya.
Entrada de estrangeiros ajudou a sustentar a recuperação
O principal índice da bolsa brasileira terminou a semana aos 177.664,62 pontos. A recuperação ocorreu em um ambiente de retomada do fluxo estrangeiro, depois de investidores recomporem posições em ações que haviam caído ao longo do mês, especialmente Vale (VALE3) e bancos.
De acordo com estimativa do Bank of America, os estrangeiros direcionaram cerca de R$ 3,2 bilhões ao mercado à vista na última semana. O movimento reverteu parte das saídas próximas de R$ 22 bilhões registradas ao longo de agosto. Ainda assim, o saldo acumulado no ano permanecia positivo em R$ 16 bilhões.
Para Bruna Sene, analista de renda variável da Rico, outros fatores foram a queda do petróleo, que reduz a pressão sobre a inflação global e brasileira, e a recomposição de posições em empresas que haviam perdido valor.
Inflação e emprego reforçaram apostas sobre a Selic
No cenário doméstico, o IPCA-15 caiu 0,40% em agosto, enquanto a inflação acumulada em 12 meses ficou em 4,24%, abaixo das expectativas do mercado. O indicador é uma prévia do IPCA oficial e pode influenciar as projeções para os próximos passos do Banco Central.
Os dados de trabalho também tiveram sinais mistos. A taxa de desemprego recuou para 5,3% no trimestre encerrado em julho, menor nível para o período desde o início da série histórica, em 2012. Já o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados registrou a criação de 58.568 vagas com carteira assinada em julho, abaixo do esperado.
A leitura combinada de inflação mais comportada e atividade de emprego menos intensa abriu espaço, na avaliação dos investidores, para novos cortes da Selic, atualmente em 14% ao ano. O contrato de DI para janeiro de 2027, usado como referência para as expectativas de juros, terminou a semana em 13,610%.
Yduqs dispara com possível fusão com a Afya
A Yduqs confirmou ao mercado que mantém tratativas para uma potencial combinação de negócios com a Afya. A possibilidade de fusão colocou a ação no topo do desempenho semanal do Ibovespa, com alta de 12,33%.
Na avaliação do Itaú BBA, a operação pode ampliar a presença geográfica das duas companhias. Como as negociações ainda estão em andamento, o comportamento do papel refletiu principalmente a expectativa dos investidores sobre possíveis ganhos estratégicos com a união das empresas.
Exterior trouxe cautela sobre os juros americanos
Nos Estados Unidos, o discurso de Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, no simpósio de Jackson Hole aumentou a preocupação com a inflação. Ele afirmou que o banco central ainda terá trabalho a fazer caso os preços não avancem rapidamente para a meta de 2%.
O índice de inflação preferido do Fed, o PCE, registrou alta de 3,7% em agosto, acima da meta e das expectativas. Após as declarações, a ferramenta FedWatch passou a indicar 57% de probabilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros americanos em setembro, contra 35,7% antes do discurso.
As incertezas externas se somaram a novas sanções dos Estados Unidos contra o Irã e à disputa comercial com o Canadá, que envolve tarifas adicionais sobre veículos e retaliações a produtos americanos.
O que os investidores acompanham a partir de agora
Além dos juros e da inflação, o mercado brasileiro monitorou o cenário eleitoral, após pesquisas apontarem redução da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre o senador Flávio Bolsonaro nas disputas de primeiro e segundo turnos. A política doméstica pode continuar influenciando o câmbio, os juros futuros e as ações mais sensíveis ao ambiente econômico.
O dólar à vista encerrou a semana em R$ 5,1965, com alta de 1% no período. Para quem investe, a semana mostrou como o Ibovespa pode reagir simultaneamente ao fluxo internacional, aos dados de inflação e emprego e a eventos específicos de empresas, como a possível fusão que impulsionou a Yduqs. A Braskem também esteve no radar após entrar em recuperação extrajudicial, com dívidas próximas de US$ 11 bilhões, levando a B3 a retirar suas ações dos índices, inclusive do Ibovespa.
Impacto para a sociedade
A inflação mais baixa e o desemprego em 5,3% influenciam as decisões sobre a Selic, que afetam o custo de empréstimos, financiamentos e aplicações de renda fixa. A entrada de capital estrangeiro e a alta da bolsa, porém, não mudam diretamente o orçamento da maioria das famílias no curto prazo.
