O Ibovespa subiu 0,90% nesta quarta-feira (19), aos 167.830,27 pontos, e interrompeu uma sequência de 11 pregões consecutivos de baixa, a mais longa desde 2023. O dólar à vista caiu 0,86%, para R$ 5,1766. A recuperação, porém, foi sustentada principalmente pelo alívio no exterior e ainda não representa uma mudança nos fundamentos domésticos que vinham pressionando os ativos brasileiros.

Medida do Tesouro dos EUA melhora o humor global

O principal impulso veio do anúncio do Tesouro dos Estados Unidos de que irá ampliar, pelo menos, para US$ 4 bilhões por operação as recompras de títulos de longo prazo, com vencimentos entre 10 e 30 anos. A medida busca aumentar a liquidez do mercado de Treasuries, os títulos da dívida americana.

Na véspera, o rendimento do Treasury de 30 anos havia alcançado 5,337%, o maior nível em duas décadas. Quando esses juros recuam, diminui a pressão sobre outros mercados: investidores passam a exigir um prêmio menor para aplicar em países emergentes, e ações tendem a ficar mais atraentes porque a taxa usada para descontar seus lucros futuros também cai.

O efeito ajudou Wall Street a fechar no azul. O Dow Jones avançou 0,22%, o S&P 500 subiu 0,24% e o Nasdaq ganhou 0,16%. O índice DXY, que mede o dólar contra uma cesta de moedas, recuava 0,85% às 17h20, contribuindo para a valorização do real.

Alta foi liderada por Vale, Petrobras e empresas cíclicas

Entre as ações de maior peso, Vale (VALE3) subiu 2,85%, para R$ 72,16. Petrobras também avançou, favorecida pela alta do petróleo Brent: PETR3 ganhou 1,28%, a R$ 48,14, e PETR4 teve alta de 1,20%, a R$ 43,11. O setor financeiro acompanhou o movimento, com o Índice Financeiro subindo 0,25% e Itaú Unibanco (ITUB4) avançando 0,47%, a R$ 38,37.

Na ponta positiva, Cosan (CSAN3) disparou 8,31%, para R$ 7,65, enquanto MBRF (MBRF3) subiu 7,65%, a R$ 17,31, em meio à avaliação de melhora nas margens e no processamento de carne bovina. Já Magazine Luiza (MGLU3) caiu 5,37%, a R$ 4,05, após os ganhos das duas sessões anteriores. Gerdau (GGBR4) recuou 5,21%, e Metalúrgica Gerdau (GOAU3) perdeu 4,60%.

Fluxo estrangeiro continua sendo ponto de atenção

Apesar da alta, o movimento foi classificado como um “respiro temporário” por Nicolas Gass, chefe de alocação e sócio da GT Capital. Até 14 de agosto, investidores estrangeiros haviam retirado R$ 18,147 bilhões da B3 em agosto, sinal de que a melhora de um único pregão ainda não confirma o retorno desses recursos.

O mercado também continuou acompanhando o cenário fiscal e o avanço da proposta de emenda à Constituição que prevê o fim da escala de trabalho 6×1. As incertezas eleitorais, fiscais e relacionadas aos juros seguem incorporadas aos preços dos ativos brasileiros.

Ata do Fed reforça cautela com os juros americanos

A ata da última reunião do Federal Reserve mostrou que parte dos dirigentes defendia uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros em julho, diante de uma inflação ainda elevada e disseminada. O documento também indicou que as condições financeiras já são restritivas.

Esse tom limita a duração do alívio: mesmo com a ação do Tesouro, o mercado continuará avaliando os próximos dados de inflação e atividade dos Estados Unidos. No Brasil, a queda dos juros futuros acompanhou os Treasuries, mas não significou uma reavaliação da política monetária doméstica.

O que observar depois da interrupção das quedas

O petróleo Brent subiu 0,23%, para US$ 91,23 por barril, na quarta alta consecutiva, apoiando as ações da Petrobras. As cotações refletem as tensões no Oriente Médio e as incertezas sobre a navegação no estreito de Ormuz, embora o avanço tenha sido limitado pelo aumento de 4,4 milhões de barris nos estoques americanos.

Para os próximos pregões, o ponto central será saber se o capital estrangeiro volta a comprar ações brasileiras de forma consistente. Sem essa confirmação e sem melhora nas incertezas domésticas, a alta de 0,90% deve ser interpretada como uma recuperação pontual após a perda acumulada de 6,55% nos 11 pregões anteriores, e não como garantia de reversão da tendência.