O Ibovespa abriu em queda nesta quinta-feira (20) e recuou à faixa de 167,2 mil pontos, em meio à piora do ambiente externo e ao aumento das tensões no Oriente Médio. Por volta das 10h10, o principal índice da bolsa brasileira caía 0,29%, aos 167.347,65 pontos, enquanto o dólar à vista subia 0,19%, a R$ 5,1863. O movimento mostra que o alívio observado na véspera perdeu força diante da pressão dos juros globais e da maior busca por proteção.

Juros dos EUA voltam a pressionar os ativos de risco

O rendimento do Treasury de dez anos, título do governo americano usado como referência para diversos financiamentos, avançava para 4,708%, ante 4,653% no ajuste anterior. O yield do papel de 30 anos também subia, de 5,194% para 5,26%.

Quando os juros dos títulos americanos aumentam, investimentos considerados mais arriscados, como ações de mercados emergentes, precisam oferecer uma compensação maior para atrair recursos. Isso reduz a atratividade relativa da bolsa brasileira e pode provocar saída de capital, pressionando simultaneamente o Ibovespa e o real.

Na véspera, o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou uma ampliação das recompras de títulos de longo prazo, mas a avaliação do ING é que a medida não deve mudar a trajetória dos juros longos. A recompra maior tende a ser compensada pela emissão de mais dívida de curto prazo, sem alterar substancialmente o volume total de financiamento do governo.

Risco geopolítico amplia a cautela no mercado

As tensões no Oriente Médio também pesam sobre o humor dos investidores. As negociações para a reabertura do estreito de Ormuz permanecem no radar, em um momento em que qualquer incerteza na região aumenta a preocupação com rotas comerciais, energia e inflação global.

Esse tipo de risco costuma elevar a procura por ativos considerados mais seguros e aumentar o prêmio exigido para investir em países emergentes. No Brasil, o efeito aparece na combinação de bolsa em baixa e dólar em alta, ainda que a moeda americana recuasse 0,08% ante uma cesta de divisas fortes, para 98,749 pontos.

Orçamento e impostos entram no radar doméstico

O governo estima que as despesas obrigatórias com benefícios previdenciários crescerão 7,7% em 2027. A projeção é de que esse gasto passe de R$ 1,135 trilhão previsto para 2026 para R$ 1,223 trilhão no próximo ano, conforme os números que devem acompanhar o Projeto de Lei Orçamentária Anual, previsto para ser enviado ao Congresso em 31 de agosto.

O mercado acompanha esses dados porque o avanço das despesas obrigatórias reduz o espaço para outros gastos e torna mais difícil cumprir as metas fiscais. A percepção de maior pressão sobre as contas públicas pode elevar os juros exigidos pelos investidores e afetar a precificação de ações e títulos brasileiros.

Também voltou ao radar a medida provisória que suspendeu a cobrança de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50, conhecida como “taxa das blusinhas”. Publicada em 13 de maio, a MP precisa ser aprovada até 8 de setembro para não perder a validade. A decisão pode alterar o custo final dessas compras para os consumidores.

Tarifas dos EUA e próximos sinais para o pregão

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Rosa, afirmou que uma eventual aplicação de medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos pode ficar para o próximo governo. Segundo ele, o processo dificilmente seria concluído antes de dezembro.

Os Estados Unidos impuseram em julho tarifas de até 37,5% sobre parte dos produtos brasileiros. O governo ainda avalia internamente os efeitos das medidas, enquanto tenta negociar uma solução antes do fim do ano. Para os investidores, o tema envolve riscos para exportações, empresas afetadas e atividade econômica.

Ao longo do dia, o mercado também deve repercutir balanços corporativos, dados de inflação e a ata do Copom. O comportamento dos Treasuries, as notícias sobre o Oriente Médio e a evolução do dólar serão os principais indicadores para saber se a pressão sobre o Ibovespa se intensifica ou perde força.

Impacto para a sociedade

A alta dos juros dos títulos dos Estados Unidos pode encarecer o crédito e pressionar o custo de financiamentos no Brasil, além de afetar o câmbio e os preços de produtos importados. No mercado doméstico, a discussão sobre impostos e o aumento das despesas previdenciárias também pode influenciar o orçamento público e a trajetória das contas do governo.