O Ibovespa opera em forte queda nesta sexta-feira (07), recuando mais de 1% e renovando mínimas na casa dos 173,3 mil pontos, pressionado pelas ações da Petrobras, que viraram de alta para baixa após um bom balanço, e pelos bancos. O movimento ocorre em meio à divulgação do payroll dos Estados Unidos, que mostrou perda de 23 mil vagas em julho, frustrando as expectativas de criação de empregos e aumentando o temor de desaceleração da maior economia do mundo. O dólar comercial cai a R$ 5,09 e os juros futuros recuam, refletindo a revisão das apostas para a política monetária americana.

Por que o payroll fraco derruba a bolsa brasileira

O relatório de empregos dos EUA veio muito abaixo do esperado: foram 23 mil vagas eliminadas em julho, enquanto o mercado projetava criação de postos de trabalho. Além disso, o dado de junho foi revisado para baixo, de 57 mil para apenas 20 mil empregos criados. Segundo analistas, isso reforça a percepção de que o mercado de trabalho americano está desacelerando em ritmo mais intenso do que o previsto, o que coloca em dúvida a necessidade de um novo aumento de juros pelo Federal Reserve na reunião de setembro.

Com isso, a probabilidade implícita de alta de juros nos EUA em setembro caiu de 56,7% ontem para 44% hoje. As curvas de juros dos Treasuries também operam em queda. Para o Brasil, o efeito é ambíguo: por um lado, juros americanos mais baixos tendem a enfraquecer o dólar e a beneficiar ativos de emergentes; por outro, a sinalização de desaceleração global pressiona commodities e ações de risco, o que ajuda a explicar a aversão ao risco no Ibovespa.

Petrobras: de alta a queda após balanço e dividendos

As ações da Petrobras chegaram a subir cerca de 2% na abertura, reagindo ao balanço do segundo trimestre e ao anúncio de dividendos. Mas a alta não se sustentou: por volta das 11h46, PETR3 caía 2,11% e PETR4 perdia 1,78%, renovando mínimas. A virada ocorre em um dia de realização de lucros e de aversão global a risco, apesar do resultado considerado positivo pela empresa.

Além disso, o diretor da ANP, Pietro Mendes, afirmou que a Petrobras tem “margem enorme” no mercado de gás natural, ao comentar o programa “gas release”, que visa desconcentrar o mercado e reduzir preços. Ele disse que a companhia compra gás a US$ 3,8 e vende a US$ 12,4 por milhão de BTU, uma margem de US$ 8,6. A declaração pode aumentar a pressão política sobre a empresa, mas não foi o principal fator da queda de hoje.

Bancos e outras ações pressionam o índice

Além da Petrobras, os bancos também contribuem para a queda do Ibovespa. O índice renovou mínimas sucessivas ao longo da manhã, chegando a cair 1,26% aos 173.341 pontos. As ações de Casas Bahia (BHIA3) despencam 8,86%, a R$ 0,72, e operam em leilão. A Vale (VALE3), que chegou a operar em alta, virou para queda de 0,05%, a R$ 75,35, acompanhando o movimento de commodities.

Em Nova York, os índices americanos operam em alta, com o Nasdaq subindo mais de 1%, impulsionado por tecnologia, mas isso não é suficiente para sustentar o mercado brasileiro, que sofre com questões locais e com a realização de lucros após o rali recente.

O alerta do UBS sobre as contas públicas

Em meio ao pregão, o UBS divulgou um alerta contundente: as regras fiscais brasileiras “ruíram” e o país caminha para uma crise em 2027 sem reformas. A avaliação reforça a desconfiança dos investidores com a trajetória da dívida pública e ajuda a explicar a aversão a risco no mercado doméstico, mesmo com o dólar em queda e os juros futuros recuando.

O mercado monitora de perto os próximos passos do governo na área fiscal, enquanto o Banco Central segue com a Selic em patamar elevado. A combinação de juros altos, incerteza fiscal e desaceleração global cria um cenário de volatilidade para a bolsa brasileira.

O que esperar para o resto do pregão

O Ibovespa deve continuar sensível aos desdobramentos do payroll e às falas de dirigentes do Fed. Thomas Barkin, presidente do Fed de Richmond, disse que não acredita em inflação vinda dos salários no momento, o que pode reforçar a aposta em pausa nos juros americanos. No Brasil, a atenção se volta para o comportamento da Petrobras e dos bancos, que concentram grande peso no índice.

Para quem investe, o dia mostra como notícias externas e locais se combinam para mexer com os preços. A queda do dólar e dos juros futuros pode beneficiar alguns setores, mas a aversão a risco global e a incerteza fiscal pedem cautela. O investidor deve acompanhar os próximos indicadores americanos e as sinalizações do governo brasileiro sobre o ajuste das contas públicas.