Herdeiros da Brown-Forman, dona do uísque Jack Daniel’s, acusaram a administração e o conselho de falhas na condução dos negócios, no pagamento de bônus e na negociação frustrada com a Pernod Ricard. A ofensiva ocorre depois de o valor de mercado da companhia cair de cerca de US$ 38 bilhões em 2020 para até US$ 10,5 bilhões no início de 2026, uma perda de aproximadamente 72% que reduziu o patrimônio da família controladora e dos demais acionistas.
Herdeiros questionam desempenho e remuneração
Em carta datada de 10 de julho, W. L. Lyons Brown III e Stuart Brown criticaram o conselho pela deterioração dos resultados, por práticas de remuneração consideradas inadequadas e pelo fracasso das negociações com a Pernod Ricard. Os dois afirmaram que a queda das ações está eliminando bilhões de dólares em patrimônio geracional da família Brown.
O principal alvo foi Lawson Whiting, então diretor-presidente. Os irmãos disseram que ele acumulava três anos de desempenho operacional fraco, transações malsucedidas e aumentos relevantes na própria remuneração, enquanto as ações permaneciam deprimidas e funcionários eram demitidos. Três dias depois da carta, a companhia anunciou que Whiting havia decidido se aposentar.
Bônus de US$ 6 milhões ampliaram a revolta
Os herdeiros também questionaram a aprovação de bônus para executivos envolvidos na tentativa de acordo com a Pernod Ricard. Na avaliação deles, a transação não produziu valor para os acionistas e, ainda assim, os responsáveis receberam pagamentos.
Em documento regulatório, a Brown-Forman informou que executivos como Whiting e o diretor financeiro Jim Peters receberam aproximadamente US$ 6 milhões em pagamentos. A remuneração de Whiting somou cerca de US$ 2,7 milhões, segundo o detalhamento apresentado pela companhia.
Por que a venda para a Pernod Ricard fracassou
As negociações começaram a ser avaliadas depois que as ações da Brown-Forman atingiram, em 20 de março, o menor nível em quase 14 anos. Na semana seguinte, surgiu a informação de que a Pernod Ricard analisava uma possível aquisição da empresa sediada em Louisville, no Kentucky. As conversas terminaram aproximadamente um mês depois, sem acordo.
Na carta, os irmãos pediram explicações sobre os motivos do fracasso e perguntaram qual seria o próximo plano da companhia. “Se a transação com a Pernod Ricard era o Plano A, qual é o Plano B?”, escreveram. Eles também criticaram a Wolf Pen Branch, entidade controlada pela família que reúne descendentes dos Brown com a maioria das ações com direito a voto da classe A.
Setor de destilados enfrenta mudança de consumo
A crise da Brown-Forman ocorre em meio a uma fase difícil para fabricantes de bebidas destiladas. O setor enfrenta redução no consumo de álcool, mudança nas preferências dos consumidores e maior preocupação com os riscos associados à bebida.
Esse cenário pressiona a receita — o faturamento obtido com as vendas — e reduz as expectativas de crescimento. Quando investidores projetam vendas e lucros menores, tendem a aceitar pagar menos pelas ações, o que derruba o valor de mercado mesmo que marcas conhecidas, como Jack Daniel’s, Woodford Reserve, Herradura e Diplomático, continuem relevantes.
O que a crise sinaliza para os acionistas
A Brown-Forman afirmou que leva a sério as manifestações de todas as partes interessadas e mantém diálogo construtivo. A carta, porém, expõe uma disputa de governança em uma empresa controlada por uma família, na qual a concentração dos votos pode limitar a influência dos acionistas minoritários.
Para quem investe, o próximo ponto de atenção será a capacidade da companhia de apresentar uma estratégia após a saída de Whiting, recuperar resultados e justificar a remuneração da liderança. Para consumidores e trabalhadores, o episódio não muda imediatamente preços ou empregos no Brasil; seus efeitos diretos estão concentrados no valor das ações, na gestão da empresa e no patrimônio dos acionistas.
