As eleições de outubro podem aumentar a volatilidade do dólar, mas o resultado das urnas, por si só, não define a direção da moeda. Em análise divulgada nesta quarta-feira, 23 de setembro, o Goldman Sachs compara pleitos anteriores e aponta que a reação dependerá sobretudo do grau de disputa em torno da política econômica e dos primeiros passos dos eleitos.
Posições em real refletem juros altos no Brasil
O banco observa que investidores mantêm posições compradas em real, uma estratégia popular entre operadores de câmbio que buscam retorno com o carry trade. Nessa operação, o investidor tenta aproveitar a diferença entre os juros de países distintos. Os níveis atuais dessas posições se parecem com os de 2022 e com os registrados antes das eleições de 2006 e 2010.
O volume, porém, supera bastante o de 2018. Para o Goldman, uma explicação é o patamar atual dos juros reais — os juros descontada a inflação —, que oferece retorno elevado. Em 2018, essa taxa estava perto de mínimas históricas, ressalvado o período excepcional da pandemia. Em 2014, as posições de carry trade eram maiores que as atuais, mas os juros reais eram menores, em um contexto de inflação mais alta.
Contas públicas ajudam a explicar os juros reais
O relatório relaciona os juros reais elevados à situação fiscal brasileira. Segundo os analistas, o cenário é, ao mesmo tempo, reflexo e fator que contribui para um déficit nominal acima de 9% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse indicador considera o resultado das contas públicas e os juros da dívida.
O déficit primário, que exclui os gastos com juros, está em torno de 0,7% do PIB. Embora não seja elevado em termos absolutos, aumentou nos últimos anos e permanece distante do superávit de 2% a 3% do PIB que, segundo o banco, seria necessário para estabilizar a dívida no médio prazo. A leitura fiscal é relevante porque pode influenciar a confiança dos investidores e a disposição de manter recursos no país.
Histórico mostra que o primeiro turno pode mexer com o câmbio
Na avaliação do Goldman, os resultados do primeiro turno podem ter peso expressivo sobre o mercado cambial. A reação tende a depender do quanto a disputa coloca em evidência diferenças sobre a condução da economia. Nas eleições de 2006 e 2010, os movimentos foram mais estáveis, pois os pleitos não foram percebidos como momentos decisivos.
Em 2022, após o segundo turno, o dólar subiu 4,5% ante o real. O banco associa o movimento ao resultado apertado e à composição do Congresso, com predominância de forças de centro-direita. O padrão, segundo a análise, teve semelhanças com o observado em 2014, embora a trajetória cambial possa variar ao longo da campanha e entre os turnos.
Depois da votação, mercado acompanha decisões concretas
O desfecho eleitoral não necessariamente reverte uma tendência do câmbio. O Goldman argumenta que os sinais sobre a política econômica e as decisões iniciais dos eleitos podem ser mais determinantes. Em 2018, por exemplo, depois da vitória de Jair Bolsonaro, a atenção se voltou à possibilidade de reformas em um Congresso fragmentado. Indícios de que a reforma da Previdência avançaria mais lentamente contribuíram para a desvalorização do real em novembro.
Em 2014, a nomeação de ministros considerados mais ortodoxos por Dilma Rousseff foi seguida por uma valorização do real no fim de novembro, mas a moeda voltou a se enfraquecer em 2015. O banco atribui aquela piora tanto a fatores domésticos — como estagflação — quanto a condições externas adversas, incluindo dólar globalmente mais forte e queda das commodities.
O que observar no câmbio durante outubro
O estudo não apresenta um nível específico para o dólar em outubro. Em vez disso, destaca que a disputa eleitoral e as expectativas sobre a política econômica podem alterar a percepção de risco e provocar oscilações. Depois do período eleitoral, fatores externos tendem a voltar a ter mais peso na moeda, segundo a análise.
Para quem investe, consome ou trabalha, a implicação é acompanhar não apenas pesquisas e resultados, mas também as sinalizações sobre a economia e a situação fiscal. Mudanças no câmbio podem afetar custos de importação e preços, mas o histórico citado pelo banco mostra que a direção não é automática: depende dos acontecimentos políticos e econômicos dentro e fora do país.
Impacto para a sociedade
A cotação do dólar pode influenciar o preço de produtos importados e, por essa via, contribuir para a inflação. O relatório também chama atenção para o desequilíbrio das contas públicas, que pode afetar as condições econômicas e a capacidade de financiar políticas públicas.
