O Goldman Sachs avalia que o primeiro turno das eleições pode abrir espaço para uma reprecificação de ações brasileiras, sobretudo as mais sensíveis aos juros. Já Cássio Bambirra, sócio e COO da One, considera quase certo que haverá segundo turno e aponta o que pode influenciar a reação da Bolsa: a distância entre os votos de Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, além do desempenho dos demais candidatos e da composição do Congresso.

Ações domésticas podem reagir mais que o Ibovespa

O Ibovespa avançou cerca de 10% desde as mínimas de meados de agosto e acumulava alta de aproximadamente 13% em 2026 até 1º de outubro. Mas a valorização do índice não foi acompanhada por todas as empresas: exportadoras de commodities ajudaram a sustentá-lo, enquanto ações ligadas à economia doméstica, small caps e papéis sensíveis aos juros estavam estáveis ou em queda no ano.

Na cesta de ações sensíveis aos juros acompanhada pelo Goldman, a queda acumulada era de 5% no ano, ante a alta de 13% do Ibovespa. O banco estima que esses papéis têm um “beta de juros” de duas a três vezes o do índice geral. Em termos simples, isso indica que podem oscilar mais quando mudam as expectativas para as taxas.

Bancos, empresas de serviços públicos, consumo e construção estão entre os setores que podem ser mais influenciados por essa dinâmica. Juros menores tendem a aliviar o custo de empréstimos e financiamentos e podem estimular a atividade, favorecendo empresas dependentes do crédito. Ao mesmo tempo, a renda fixa pode se tornar relativamente menos atraente, o que também pode mudar a procura por ações.

O histórico eleitoral mostra movimentos nos dois sentidos

O Goldman observa que o mercado brasileiro teve altas entre o primeiro e o segundo turno em 2006, 2018 e 2022: o índice MSCI Brazil subiu de 4% a 7% em moeda local nesses períodos. Em 2014, porém, recuou cerca de 5%. O dado mostra que as eleições podem mexer com os preços, mas não apontam uma direção garantida para 2026.

Também houve resultados diferentes nos meses seguintes às eleições. Em 2006 e 2018, o mercado avançou entre 10% e 20% nos seis meses posteriores; em 2022, caiu cerca de 15%. Bambirra, por sua vez, lembra que o Ibovespa subiu 5% após a eleição de 2022. São referências de períodos e indicadores distintos, não uma previsão para o próximo pleito.

Votos e composição do Congresso entram no radar

Para Bambirra, a reação na segunda-feira, 5 de outubro, pode depender de eventuais diferenças entre as porcentagens de votos esperadas e as efetivamente obtidas por Lula e Flávio Bolsonaro. O desempenho dos outros candidatos também importa: seus votos podem indicar como se distribuirá o apoio no segundo turno.

O resultado para o Senado e a Câmara dos Deputados é outro ponto a acompanhar. A composição do Congresso pode ajudar a formar expectativas sobre a capacidade de aprovação de medidas e os rumos da política econômica. No entanto, o resultado das urnas, por si só, não define como serão as decisões sobre gastos públicos, contas do governo ou juros.

Debate e Payroll podem afetar os pregões antes da votação

Antes do primeiro turno, há dois pregões, incluindo o de quinta-feira, 1º de outubro. Um debate presidencial está previsto para essa quinta, mas Bambirra avalia que o dado com maior potencial de provocar oscilações na sexta-feira, dia 2, é o Payroll, relatório dos Estados Unidos sobre vagas de trabalho, desemprego e salários.

Os números podem alterar as expectativas sobre os próximos passos do Federal Reserve, o banco central americano. Mudanças nessas expectativas influenciam as condições financeiras globais e o apetite por ativos de risco, incluindo ações brasileiras. Assim, a Bolsa pode reagir a fatores externos antes mesmo de os investidores avaliarem os resultados eleitorais.

O que observar depois do primeiro turno

Para quem acompanha investimentos, o ponto central será como o mercado traduzir os resultados em expectativas para juros e política fiscal, e não apenas se o Ibovespa sobe ou cai no primeiro pregão. Uma perspectiva de maior disciplina fiscal e de juros menores poderia favorecer ações domésticas; incertezas sobre esses temas podem alimentar oscilações. O material do Goldman destaca o potencial de reprecificação, sem afirmar qual cenário vai prevalecer.

Depois da votação de domingo, 4 de outubro, a disputa deve seguir até o segundo turno, considerado quase certo por Bambirra. Até lá, os números de votos, a formação do Congresso e os sinais sobre a política econômica poderão influenciar os preços. Esses movimentos são relevantes para investidores, mas não significam, por si só, mudança imediata nas taxas de crédito ou nos gastos das famílias.