O Goldman Sachs reduziu de US$ 16 para US$ 15 por ação o preço-alvo de 12 meses para as ADRs da Vale, recibos negociados nos Estados Unidos, e manteve a recomendação neutra para os papéis. A revisão incorpora avanços nos projetos de cobre, mas indica que eles ainda não compensam a expectativa de queda do minério de ferro e o aumento dos custos, fatores que devem pressionar os resultados da mineradora até 2028.

Projetos de cobre avançam, mas efeito financeiro ainda é limitado

O banco considerou encorajadoras as atualizações de dois projetos da Vale Base Metals. O Bacaba deve começar a operar cerca de seis meses antes do cronograma previsto, enquanto o projeto CPF, sigla em inglês para flotação de partículas grossas, na mina de Salobo, recebeu aprovação antes do esperado pelo mercado.

Em conjunto, os empreendimentos podem acrescentar entre 45 mil e 65 mil toneladas por ano à produção de cobre. O avanço ajuda a Vale a perseguir a meta de alcançar 700 mil toneladas anuais até 2035, ante aproximadamente 380 mil toneladas estimadas para 2025. O metal é considerado estratégico por seu uso em redes elétricas, veículos elétricos e equipamentos ligados à expansão da inteligência artificial.

Minério de ferro mais barato reduz projeções para o Ebitda

Mesmo incluindo os novos projetos nos cálculos, o Goldman Sachs reduziu entre 4% e 8% suas estimativas para o Ebitda da Vale entre 2026 e 2028. O indicador mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização e é usado para avaliar a geração de caixa do negócio principal.

A principal razão foi a revisão para baixo das projeções para o minério de ferro. O banco agora trabalha com preço médio de US$ 94 por tonelada em 2027, contra US$ 99 na estimativa anterior, e de US$ 92 por tonelada em 2028, ante US$ 96. Como o minério de ferro representa a maior parte da atividade da Vale, preços menores reduzem a receita por tonelada e comprimem a geração de caixa, mesmo quando a produção cresce.

Níquel e custos de cobre ajudam a limitar a pressão

Parte do impacto negativo é compensada por uma visão mais favorável para os preços do níquel e por custos menores na operação de cobre. Nesse caso, receitas maiores com subprodutos, materiais obtidos durante o processo de produção, ajudam a reduzir o custo efetivo da atividade.

O Goldman, porém, avalia que a Vale já apresentou avanços operacionais relevantes. Isso limita o espaço para novas surpresas positivas, especialmente em um ambiente no qual os preços das principais commodities da companhia podem ficar estáveis ou recuar nos próximos anos.

Recomendação contrasta com a visão positiva de outros bancos

A avaliação do Goldman Sachs diverge das leituras recentes de BTG Pactual e Itaú BBA, que reforçaram visões positivas para a Vale. Esses bancos destacaram o potencial de valorização das ações, a disciplina na distribuição e no uso do capital e o avanço dos projetos de cobre.

Na análise do Goldman, a ação negocia com rendimento de fluxo de caixa livre próximo de 5% e múltiplos de valor da firma sobre Ebitda entre 5,2 e 5,3 vezes para 2027 e 2028. Empresas australianas comparáveis são negociadas entre 5,9 e 6,4 vezes nessa mesma métrica, que relaciona o valor total da companhia à sua capacidade operacional de geração de resultado.

China, câmbio e oferta global estão no radar

Entre os fatores que poderiam melhorar a perspectiva estão uma recuperação da demanda chinesa por aço, por meio do setor imobiliário ou de investimentos em infraestrutura, e interrupções na oferta global de minério de ferro. Um dólar mais forte ante o real também tende a favorecer a rentabilidade da Vale, pois parte relevante das receitas é denominada na moeda americana, enquanto custos locais são pagos em reais.

Por outro lado, uma desaceleração mais intensa da economia chinesa pode pressionar ainda mais o minério de ferro. Também pesam riscos de desequilíbrio entre oferta e demanda de cobre e níquel, novos desdobramentos legais envolvendo a Samarco e eventuais problemas operacionais nos negócios de minério de ferro e metais básicos.

Para quem acompanha a Vale, o próximo passo será observar a evolução dos preços das commodities, a execução dos projetos de cobre e os custos de produção. A manutenção da recomendação neutra mostra que, na avaliação do Goldman, o potencial de longo prazo do cobre ainda não supera os riscos mais imediatos ligados ao minério de ferro.