Gestores passaram a identificar oportunidades em uma Bolsa brasileira depreciada, mesmo com um ambiente externo mais difícil e a expectativa de continuidade da queda da Selic. O Ibovespa, que avançou para cerca de 186 mil pontos nas últimas semanas, ainda teria espaço para subir caso a economia caminhe para juros menores e um ajuste fiscal mais consistente, mas o cenário eleitoral mantém os investidores cautelosos.

Desconto da Bolsa abre espaço para recuperação

Frederico Sampaio, diretor de investimentos da Franklin Templeton Brasil, afirma que as ações brasileiras estão “amassadas” em relação aos fundamentos. A Bolsa é negociada a cerca de nove vezes o lucro das empresas, abaixo de mercados latino-americanos como Chile, em torno de 13 vezes, Peru, com 14 vezes, e Colômbia, com 10,6 vezes.

Se o indicador de preço sobre lucro, conhecido como múltiplo P/L, voltasse à média histórica, o gestor estima que o Ibovespa poderia alcançar 230 mil pontos. Isso representaria uma alta de aproximadamente 24% em relação aos 186 mil pontos atuais. Em um cenário sem o ajuste fiscal esperado pelo mercado, porém, o índice poderia recuar para perto de 160 mil pontos.

Eleição divide expectativas sobre a política econômica

Para Sampaio, o cenário é “50%-50%” e depende da direção da política econômica após as eleições. A continuidade do modelo atual e uma mudança mais profunda na condução fiscal produzem avaliações diferentes para empresas, juros e crescimento.

O mercado tem reagido a pesquisas e notícias eleitorais, fazendo compras de forma gradual. A avaliação é que empresas ligadas à economia doméstica podem se beneficiar de uma eventual mudança de expectativas, mas reviravoltas no processo eleitoral tornam arriscada qualquer aposta baseada apenas em um retrato momentâneo.

Juros menores podem favorecer ações e crédito

Leonardo Mendes, consultor financeiro da Manchester Investimentos, afirma que a trajetória estrutural da Selic tende a ser de queda no médio e no longo prazo, independentemente do vencedor da eleição. A velocidade e a intensidade dos cortes, contudo, dependerão da percepção sobre o próximo governo e suas contas públicas.

Quando a Selic cai, novas aplicações de renda fixa passam a oferecer remuneração menor, o que pode aumentar o interesse por ativos de risco. Ao mesmo tempo, o crédito tende a ficar mais barato gradualmente, favorecendo consumo e investimento. Na Bolsa, empresas dependentes de financiamento podem se beneficiar, embora inflação, risco fiscal e atividade econômica também influenciem seus resultados.

Quais setores aparecem entre as preferências

A Franklin Templeton concentra sua preferência em ações de alta liquidez, conhecidas como blue chips, por considerar que elas estão descontadas e são mais negociadas em um período de incerteza. A gestora evita empresas muito endividadas ou dependentes de crédito, como parte do setor de varejo.

Entre os papéis citados estão XP, B3 e BTG Pactual, ligados ao mercado de capitais e potencialmente favorecidos por juros mais baixos. Também aparecem bancos, com destaque para Itaú Unibanco, empresas reguladas de saneamento e energia, que podem entregar dividendos entre 8% e 10% ao ano, e Petrobras. No caso da estatal, a geração de caixa é apontada como atrativa com o petróleo a US$ 105 por barril, embora exista risco político.

Riscos externos ainda limitam o otimismo

O rali recente da Bolsa ocorreu apesar da piora do cenário internacional. A decisão do Federal Reserve de elevar juros e sinalizar novas altas tende a pressionar ativos de países emergentes, pois aumenta a atratividade dos investimentos em dólar e pode reduzir o fluxo de recursos para mercados como o brasileiro.

Também permanecem no radar o preço do petróleo, os efeitos do El Niño e a definição da política fiscal. Para os investidores, a combinação entre pesquisas eleitorais, decisões do próximo governo e a atuação do Banco Central será determinante. A estratégia descrita pelos gestores é manter exposição próxima à composição do Ibovespa, sem concentrar riscos em setores ou empresas muito dependentes de crédito.

Impacto para a sociedade

A expectativa de juros menores pode reduzir o rendimento de novas aplicações de renda fixa e baratear o crédito, embora isso dependa das decisões do Banco Central. O resultado das eleições e a condução das contas públicas também podem influenciar inflação, juros, emprego e o custo de financiamentos para famílias e empresas.