O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou nesta segunda-feira (17) que os juros elevados no Brasil estão mais relacionados a questões internas do que ao cenário externo. A avaliação indica que, mesmo com a influência das condições financeiras globais, o BC considera necessário manter a Selic em nível restritivo para conter uma demanda acima da capacidade de oferta da economia.

Pleno emprego aumenta pressão sobre a inflação

Durante a 27ª Conferência Anual do Santander, em São Paulo, Galípolo disse que o Brasil está em situação de pleno emprego há algum tempo. Nesse ambiente, o crescimento vem sendo impulsionado principalmente pelo consumo, o que amplia a procura por bens e serviços.

Quando a demanda cresce mais rapidamente que a oferta, empresas podem ter dificuldade para atender aos pedidos sem elevar preços. Por isso, o presidente do BC afirmou que a política monetária precisa reequilibrar oferta e demanda, em vez de estimular uma expansão adicional do consumo.

Por que a Selic ainda é considerada restritiva

Em 5 de agosto, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Apesar do corte, a taxa continua em um patamar que desestimula parte dos empréstimos e do consumo financiado, reduzindo a velocidade da atividade econômica.

Uma política monetária restritiva atua sobre a economia ao tornar o crédito mais caro e aumentar o custo de antecipar compras e investimentos. Ao mesmo tempo, aplicações de renda fixa atreladas aos juros tendem a oferecer remuneração elevada, o que pode estimular a poupança em vez do consumo imediato.

Crescimento sustentável depende de produtividade

Galípolo afirmou que não é possível sustentar um crescimento acelerado por muito tempo se a expansão da demanda continuar pressionando a oferta e gerando inflação. Na avaliação do presidente do BC, o avanço duradouro precisa ser liderado por ganhos de produtividade.

Na prática, isso significa produzir mais bens e serviços com os mesmos recursos, ou ampliar a capacidade produtiva sem repassar custos aos preços. Sem esse aumento de eficiência, a economia tende a encontrar limites e voltar a enfrentar pressões inflacionárias quando o consumo se acelera.

Exterior ainda influencia a liquidez global

Embora tenha colocado o foco nos fatores domésticos, Galípolo disse que o cenário internacional também pode pressionar as condições financeiras do Brasil. Estados Unidos, Alemanha e Japão, países que antes demandavam menos liquidez em determinadas circunstâncias, passaram a exercer esse papel de maneira mais clara, segundo ele.

Uma disputa maior por recursos no exterior pode reduzir a disponibilidade de capital e elevar o custo de financiamento para economias emergentes. Esse canal afeta o câmbio, os fluxos de investimento e as condições de crédito, mas, na leitura apresentada pelo presidente do BC, não é o principal motivo do atual ciclo de política monetária.

Inadimplência preocupa e próximos passos seguem dependentes dos dados

O presidente do BC também classificou como preocupante o aumento do endividamento e da inadimplência. Ele destacou especialmente o uso de linhas caras, como o cartão de crédito rotativo e modalidades sem garantia, nas quais o comprometimento da renda pode crescer rapidamente com a incidência de juros.

Para quem investe, consome ou trabalha, a mensagem é que a queda de 0,25 ponto percentual na Selic não representa uma mudança imediata para uma política de estímulo. O crédito deve continuar pressionado enquanto a demanda permanecer acima da oferta, e as próximas decisões do Copom dependerão da evolução da inflação, da atividade econômica, do emprego e das condições financeiras externas.

Impacto para a sociedade

A avaliação do Banco Central ajuda a explicar por que o crédito continua caro mesmo após o corte da Selic. Juros elevados encarecem financiamentos, empréstimos e o uso do cartão, além de influenciarem o rendimento de aplicações financeiras e o ritmo de contratação e consumo na economia.