A formalização do trabalho entre jovens brasileiros apresenta fortes desigualdades regionais, sociais e raciais: ela alcança 58% dos jovens ocupados no Sul e 55% no Sudeste, mas cai para 29% no Norte e 20% no Nordeste. O retrato, elaborado pela Fundação Itaú com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva, mostra que a entrada no mercado de trabalho ainda ocorre de maneira muito diferente conforme a origem e as oportunidades disponíveis.

Carteira assinada é maioria, mas está longe de alcançar todos

A pesquisa Juventudes e o Mundo do Trabalho ouviu 1.816 pessoas de 16 a 29 anos entre 11 e 23 de maio de 2026. Do total, 70% declararam estar trabalhando. Entre esses jovens, 44% tinham carteira assinada, enquanto 15% eram assalariados sem registro, 13% atuavam como autônomos ou freelancers, 10% estavam em trabalhos informais e 8% eram estagiários ou aprendizes remunerados.

A diferença entre essas formas de ocupação é relevante para a vida financeira. O emprego formal tende a oferecer maior previsibilidade de renda e acesso a direitos trabalhistas, enquanto o trabalho sem registro e os bicos deixam o trabalhador mais exposto à variação da demanda e à interrupção dos ganhos. Ao mesmo tempo, 20% dos jovens disseram estar procurando trabalho, e 61% afirmaram ter buscado uma nova colocação no último ano.

Região, renda e raça alteram a chance de formalização

Além do contraste entre as regiões, a renda familiar também pesa. Jovens das classes A e B representam 43% daqueles que trabalham em empregos formais, ante 35% nas classes D e E. No trabalho sem registro, ocorre o inverso: a proporção é de 21% entre os jovens das classes D e E e de 13% entre os das classes A e B.

O recorte racial mostra que 49% dos jovens brancos ocupados têm emprego formal, contra 41% dos negros. Entre os negros, 12% dependem de bicos informais, mais que o dobro dos 5% registrados entre os brancos. A escolaridade amplia ainda mais a diferença: 34% dos jovens que estudaram até o ensino fundamental vivem de bicos, enquanto o percentual é de 3% entre aqueles com ensino superior.

Falta de experiência e indicações dificultam a entrada

Para 49% dos entrevistados, a falta de experiência é o principal obstáculo para conseguir emprego. Outros 39% apontaram a quantidade de pessoas disputando a mesma vaga. Esse cenário pode criar um ciclo difícil: sem a primeira oportunidade, o jovem não acumula experiência; sem experiência, enfrenta mais barreiras para conquistar uma vaga formal.

A rede de contatos tem papel central nesse processo. Para 96% dos jovens, conhecer alguém em uma empresa ou ser indicado por familiares e amigos ajuda a conseguir trabalho. Na prática, 77% disseram ter obtido o emprego atual por indicação, proporção que sobe para 81% entre os jovens de 25 a 29 anos.

Estabilidade aparece no presente, autonomia no futuro

O emprego com carteira assinada é a preferência atual de 30% dos jovens. Quando a pergunta considera os próximos cinco anos, esse percentual cai para 16%, enquanto o desejo por trabalhar por conta própria sobe de 28% para 42%.

Para Carla Chiamareli, gerente do Observatório da Fundação Itaú, a mudança pode refletir um plano de amadurecimento: começar com estabilidade e experiência para depois escolher entre permanecer em uma empresa ou abrir um negócio. O trabalho autônomo, portanto, não é necessariamente associado à precariedade pelos entrevistados, mas pode representar a expectativa de ter uma empresa ou controlar a própria atividade.

O que o levantamento sinaliza para jovens e empresas

A pesquisa indica que políticas de entrada no mercado precisam considerar diferenças de território, renda, raça e escolaridade. Ampliar o acesso a estágios, aprendizagem e primeiras experiências pode reduzir a dependência de indicações e diminuir a distância entre jovens que conseguem chegar rapidamente ao emprego formal e aqueles que permanecem nos bicos.

Para quem trabalha, a carteira assinada continua sendo vista como uma proteção importante no início da vida profissional, embora parte dos jovens projete uma transição futura para o empreendedorismo ou o trabalho autônomo. O próximo desafio é transformar essa escolha em uma decisão efetivamente livre, e não em uma consequência da falta de vagas formais. A sondagem mostra ainda que 91% esperam estar financeiramente melhor em cinco anos e 88% acreditam que terão condição superior à dos pais.

Impacto para a sociedade

O levantamento mostra que muitos jovens ainda entram no mercado por meio de trabalhos sem carteira, bicos ou atividades autônomas, o que afeta a estabilidade da renda e o acesso a direitos trabalhistas. As diferenças regionais, sociais e raciais também indicam que a chance de conseguir um emprego formal depende do local onde a pessoa vive, da escolaridade e da rede de contatos.