ETFs irlandeses de acumulação, que reinvestem automaticamente os juros dos títulos do Tesouro americano e evitam a retenção de imposto na fonte nos Estados Unidos, voltaram ao radar dos brasileiros com a alta das taxas americanas. Em uma simulação com US$ 100 mil investidos por sete anos, um fundo desse tipo acumulou US$ 7.560 a mais do que um ETF americano equivalente.
Como o reinvestimento aumenta o retorno
Os fundos europeus seguem a regulamentação UCITS, padrão adotado na União Europeia, e costumam ser domiciliados na Irlanda ou em Luxemburgo. Nos produtos de acumulação, os juros recebidos dos Treasuries não são distribuídos ao cotista: permanecem dentro do fundo e são reaplicados em novos títulos.
Esse mecanismo permite que o investidor aproveite os juros compostos, porque o rendimento passa a gerar novos rendimentos ao longo do tempo. Também evita o evento que normalmente dispara a retenção na fonte: a distribuição dos juros aos cotistas.
Por que o ETF americano pode render menos
ETFs de renda fixa listados nos Estados Unidos precisam distribuir os rendimentos dos títulos que carregam. Sobre esses pagamentos, as instituições financeiras retêm 30% na fonte para investidores estrangeiros, embora o não residente possa ser isento em determinadas situações e tenha de solicitar posteriormente a restituição.
Na prática, o valor é retido antes de voltar para a carteira do investidor. O dinheiro deixa de render durante o período em que permanece fora do fundo ou até que o processo de recuperação seja concluído. A comparação feita pela XP considerou o IB01, um ETF UCITS, e o SHV, listado nos EUA, ambos concentrados em títulos públicos americanos com vencimento de até um ano.
O que explica a diferença de US$ 7.560
Na simulação, US$ 100 mil aplicados durante sete anos em um ETF UCITS teriam produzido um ganho adicional de US$ 7.560 em relação ao ETF americano equivalente. A diferença correspondeu a aproximadamente 7,5% ao longo da série histórica usada no estudo, ou perto de 1% ao ano.
O resultado não representa uma taxa garantida nem elimina outros fatores, como variação do dólar, custos de negociação, taxa de administração, preço de compra e venda e eventual diferença entre as carteiras. A vantagem calculada decorre especificamente do tratamento dado aos juros e do efeito do reinvestimento ao longo do tempo.
Fundos europeus também reduzem exposição ao imposto sucessório
Outra diferença está no imposto sobre herança americano, conhecido como Estate Tax. Ele pode atingir ativos situados nos Estados Unidos acima de US$ 60 mil e variar de 18% a 40% em caso de morte do titular, conforme a análise apresentada.
O imposto não alcança o investimento direto em Treasuries, mas pode atingir ETFs de renda fixa listados nos EUA. Já os UCITS ficam fora dessa regra por terem domicílio fiscal na Irlanda ou em Luxemburgo, países que mantêm acordos fiscais com o governo americano.
O cenário de juros favorece a busca por renda em dólar
Os juros dos títulos americanos estão nos maiores níveis em quase duas décadas. A pressão vem, entre outros fatores, da alta do petróleo associada à guerra entre Estados Unidos e Irã, das incertezas fiscais e do volume elevado de emissões do Tesouro.
Em agosto, o Tesouro americano dobrou o tamanho das recompras de títulos longos, enquanto o Federal Reserve manteve aberta a possibilidade de uma nova alta de juros. Taxas maiores aumentam o rendimento potencial da renda fixa em dólar, mas também podem provocar perdas nos títulos de prazo mais longo se os juros continuarem subindo.
O que observar antes de investir no exterior
Os ETFs irlandeses ampliam as alternativas para quem busca exposição internacional, mas a escolha envolve avaliar liquidez, custos, risco cambial, composição do fundo e regras tributárias brasileiras. A estrutura de acumulação reduz a fricção causada pela retenção americana, mas não elimina impostos ou obrigações que possam existir no país de residência do investidor.
A diversificação também pode ser feita no mercado brasileiro, por meio de BDRs e ETFs que replicam índices internacionais, ou com uma conta global e remessa de recursos ao exterior. A decisão deve considerar o prazo, o patrimônio, a tolerância a oscilações e os objetivos de cada pessoa, sem tratar o ganho histórico da simulação como promessa de retorno futuro.
