Investidores estrangeiros voltaram a colocar dinheiro na Bolsa brasileira após a saída bilionária registrada no início de agosto. Eles aportaram R$ 3,2 bilhões na última semana, movimento que ajudou a reverter parte dos quase R$ 22 bilhões retirados do mercado à vista ao longo do mês e contribuiu para o melhor desempenho semanal entre as principais bolsas globais.
Fluxo estrangeiro reduz parte da fuga registrada em agosto
Apesar da retomada recente, o saldo de agosto ainda permanece negativo, já que o volume retirado nas primeiras semanas foi muito superior ao aporte mais recente. No acumulado de 2026, porém, os investidores internacionais ainda mantêm saldo positivo de R$ 16 bilhões na Bolsa brasileira.
O chamado fluxo estrangeiro mede a entrada e a saída de recursos de investidores de outros países no mercado acionário local. Quando há mais entradas, esses recursos aumentam a demanda por ações e podem favorecer a valorização dos preços, embora não determinem sozinhos o comportamento do índice.
Ibovespa lidera desempenho entre mercados globais
Com o alívio no fluxo, o Ibovespa avançou 2,71% em reais na última semana e subiu 1,9% quando medido em dólares. A diferença ocorre porque o resultado em moeda americana também incorpora a variação do câmbio no período.
O desempenho colocou a Bolsa brasileira à frente de outros mercados acompanhados. O S&P 500, principal índice acionário dos Estados Unidos, subiu 0,7% em dólares, enquanto o índice de mercados emergentes MSCI avançou 0,1%. No mesmo intervalo, o Mexbol, do México, caiu 0,2%, e o Colcap, da Colômbia, recuou 0,9%.
Recursos migraram de outros mercados emergentes
Para os estrategistas do Bank of America, o Brasil se beneficiou de uma rotação geográfica nos mercados emergentes. Em vez de manter os recursos concentrados nos mercados que vinham recebendo mais aportes, investidores passaram a redistribuir parte do dinheiro entre outras regiões.
Fundos de mercados emergentes excluindo a China captaram US$ 700 milhões na última semana. A Coreia do Sul, que acumulava entradas expressivas havia meses, registrou saídas relevantes. Parte dessa liquidez foi direcionada à América Latina, que recebeu US$ 200 milhões, e a fundos dedicados exclusivamente ao Brasil, com entrada de US$ 100 milhões.
Desconto da Bolsa e eleições entram no radar
Outro fator de atração é a avaliação relativamente baixa das ações brasileiras. Pelo múltiplo preço sobre lucro (P/L) projetado para os próximos 12 meses, a Bolsa do país negocia com desconto de 23% em relação à sua média histórica e de 17% frente a outros mercados latino-americanos.
Esse desconto pode aumentar o interesse de investidores que buscam ativos considerados baratos, mas não elimina os riscos. O Bank of America aponta que o mercado continua aguardando maior definição sobre as eleições. Pesquisas recentes mostram maior convergência entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL).
Risco fiscal pode definir os próximos movimentos
As investigações relacionadas ao Banco Master e ao filho do presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, também são apontadas como temas capazes de influenciar a disputa eleitoral e a percepção de risco dos investidores.
O risco fiscal permanece no centro das avaliações. A análise considera que, independentemente do vencedor, será necessário apresentar reformas para recuperar a credibilidade das políticas públicas e garantir a sustentabilidade da dívida. As propostas ainda não estão claras e devem ser conhecidas com mais precisão depois da eleição.
Na prática, a retomada estrangeira melhora o ambiente para a Bolsa no curto prazo, mas não representa uma reversão definitiva da fuga de agosto. O comportamento dos investidores deverá continuar ligado ao fluxo global para mercados emergentes, à evolução das pesquisas e à clareza dos planos fiscais dos candidatos.
