A aproximação das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos e o avanço de processos judiciais aumentam o risco para empresas que receberam investimentos do governo Donald Trump. A eventual vitória democrata em uma das casas do Congresso pode levar a investigações e colocar em dúvida a permanência das participações estatais, reduzindo o impulso que ajudou a valorizar essas ações.
Como o governo elevou o preço das empresas
Desde o início da estratégia, investidores passaram a tentar identificar quais companhias poderiam receber aportes públicos antes dos anúncios oficiais. A expectativa era de que a entrada do governo funcionasse como um sinal de apoio financeiro e político, atraindo compradores e impulsionando as cotações.
Esse movimento ficou conhecido informalmente como “Trump put”, em referência à ideia de que a proximidade com o governo criaria uma espécie de proteção para os preços das ações. O mecanismo, porém, não representa uma garantia formal: depende de decisões políticas, de acordos específicos e da capacidade de os investimentos resistirem a questionamentos legais.
Intel lidera alta, mas já perdeu força
A Intel acumulou alta superior a 300% no último ano desde os primeiros relatos de que o governo negociava uma participação na fabricante de semicondutores. A empresa também foi beneficiada pela forte demanda por chips associada aos investimentos em inteligência artificial e pela expectativa de ampliar a produção nos Estados Unidos.
Depois de atingir o pico em junho, na esteira da declaração de Trump de que a Apple trabalharia com a Intel no desenvolvimento e na fabricação de semicondutores americanos, a ação caiu 37%. No período, tornou-se o quinto pior desempenho entre as empresas do índice S&P 500. Parte da pressão vem de uma ação movida por acionistas contra o conselho da Intel, o Departamento de Comércio e o secretário Howard Lutnick para desfazer a participação estatal.
Outras ações também devolveram ganhos
A MP Materials subiu 87% desde julho do ano passado, quando o Departamento de Defesa investiu US$ 400 milhões na empresa de minerais de terras raras. Após o aporte, a ação chegou a disparar mais de 150% em cinco semanas, mas posteriormente recuou quase 27% no acumulado do ano desde então.
A Trilogy Metals, empresa canadense de exploração mineral, avançou 73% desde outubro, quando o governo americano acertou uma participação de 10% na companhia. O acordo também incluiu a aprovação de uma estrada no Alasca considerada essencial para acessar áreas onde estão os direitos de mineração. A ação saltou de US$ 2,09 para US$ 10,60 em poucos dias, mas devolveu boa parte do ganho e passou a ser negociada a US$ 3,62.
Por que as eleições podem mudar o cenário
As eleições de meio de mandato renovam parte do Congresso americano e podem alterar o controle da Câmara dos Representantes ou do Senado. Pesquisas indicam que os democratas têm probabilidade de conquistar a maioria em pelo menos uma das casas, o que permitiria convocar autoridades, intimar testemunhas e abrir audiências sobre os negócios realizados pelo governo.
Elizabeth Warren, senadora democrata cotada para presidir o Comitê Bancário do Senado caso seu partido vença a disputa, já questionou Lutnick sobre o investimento na Intel. Líderes democratas também preparam investigações sobre empresas com vínculos com o governo Trump e com a família do presidente. Além do efeito jurídico, audiências públicas podem afetar a reputação das companhias e aumentar a instabilidade das ações.
O que observar antes dos próximos anúncios
Para os investidores, o principal risco é descobrir que parte relevante da valorização não veio da melhora operacional das empresas, mas da expectativa de apoio estatal. Se uma participação for anulada ou contestada, o mercado terá de recalcular o valor das companhias com base em seus resultados, projetos e perspectivas próprias.
O processo ainda pode produzir altos e baixos, porque a estratégia intervencionista do governo não foi totalmente testada nos tribunais e no sistema político americano. A combinação entre decisões judiciais, controle do Congresso e novos anúncios de investimentos deve definir se o chamado “Trump put” continuará sustentando essas ações ou se os ganhos recentes serão parcialmente revertidos.
