A cautela dos consumidores em uma eleição apertada pode adiar até R$ 62 bilhões em vendas do varejo ampliado entre agosto e outubro, estima um estudo do Ibevar-FIA. O cálculo se baseia no comportamento observado em disputas anteriores e indica que, se a incerteza voltar a pesar em 2026, compras de maior valor podem esperar até que se conheça o resultado das urnas.

O cálculo considera o ritmo geral da economia

O estudo analisou mais de duas décadas de vendas do varejo apuradas pelo IBGE e comparou os dados com o IBC-Br, indicador do Banco Central que acompanha a atividade econômica. A ideia é separar o desempenho próprio do comércio do que poderia ser explicado pelo ritmo geral da economia.

O varejo ampliado, que inclui segmentos como veículos e materiais de construção, fatura cerca de R$ 4,3 trilhões por ano, conforme os dados citados na pesquisa. Isso equivale a aproximadamente R$ 1,08 trilhão por trimestre; nesse volume, cada ponto percentual de crescimento corresponde a cerca de R$ 10,8 bilhões em vendas.

Disputas apertadas mudaram o padrão histórico

Entre 2002 e 2022, o trimestre de agosto a outubro teve crescimento acima do padrão dos demais anos em grandes segmentos do varejo nos anos eleitorais. Em veículos, a diferença chegou a 5,5 pontos percentuais. O estudo atribui esse impulso, em geral, a fatores como reajustes, crédito e programas de estímulo, cujo efeito tende a se concentrar perto da votação.

O resultado, porém, foi diferente nas eleições decididas por menos de cinco pontos percentuais no segundo turno. Em 2014, o varejo cresceu 2,3 pontos abaixo da economia; em 2022, ficou 4,8 pontos abaixo. A pesquisa destaca que os dois episódios ocorreram sob governos de campos políticos diferentes, o que, em sua análise, aponta para a incerteza sobre o resultado — e não para a orientação de um partido — como fator de cautela.

O valor estimado não representa vendas definitivamente perdidas

Nas duas disputas apertadas, o varejo ficou 5,8 pontos percentuais abaixo do padrão, já descontado o ritmo da economia. Aplicada ao faturamento trimestral do setor, essa diferença chega a até R$ 62 bilhões. O cálculo representa compras que podem ser adiadas durante o trimestre eleitoral, não necessariamente um prejuízo permanente de igual tamanho para o comércio.

O freio também não atinge todos os gastos da mesma forma. Segundo a pesquisa, em 2022 as famílias continuaram comprando itens cotidianos, como alimentos e produtos de farmácia, mas postergaram decisões mais complexas: trocar o carro ou a geladeira e reformar a casa. São despesas maiores, muitas vezes financiadas por prazos longos, para as quais esperar pode parecer menos arriscado em meio à indefinição.

O comportamento em 2026 depende da incerteza eleitoral

Em anos sem uma disputa considerada apertada, o varejo ampliado costuma crescer 2,2 pontos acima do IBC-Br entre agosto e outubro. Nas eleições classificadas pelo estudo como tranquilas, a diferença chegou a 3,9 pontos, como em 2010. Já os resultados de 2014 e 2022 mostram que esse impulso não é garantido quando o desfecho é incerto.

Para consumidores, a implicação é que a hesitação pode se concentrar em compras planejadas e de maior valor, sem significar uma interrupção geral do consumo. Para empresas e quem acompanha o setor, os números de vendas do trimestre eleitoral precisarão ser lidos junto com o resultado da economia e o nível de incerteza sobre a eleição. O estudo não afirma que os R$ 62 bilhões deixarão de circular: indica que esse montante pode ficar à espera do resultado.

Impacto para a sociedade

Se consumidores adiarem compras de maior valor, como carros, eletrodomésticos e reformas, o comércio pode faturar menos no período eleitoral. A estimativa não significa que todo esse consumo será perdido: parte das compras pode apenas ficar para depois da votação.