A eleição de 2026 passou a ser considerada um fator capaz de definir o momento e o tamanho do próximo corte da Selic, hoje em 13,75% ao ano. Economistas avaliam que o Banco Central pode preferir esperar maior clareza sobre o resultado das urnas e a política econômica do próximo governo antes de acelerar a redução dos juros, enquanto a economia mais fraca já oferece argumentos para uma nova queda.
Resultado eleitoral pode mudar dólar e curva de juros
A preocupação está ligada principalmente à política fiscal. Dependendo da leitura do mercado sobre o compromisso do vencedor com o ajuste das contas públicas, o dólar e a curva de juros, que reúne as taxas negociadas para diferentes prazos, podem oscilar com força.
Um resultado considerado favorável à disciplina fiscal poderia reduzir o prêmio de risco do Brasil e abrir espaço para a continuidade dos cortes, segundo Carlos Lopes, economista do banco BV. Yihao Lin, da Genial Investimentos, também vê o cenário eleitoral como o principal gatilho para o afrouxamento monetário.
O Copom afirmou que menor esforço de reformas, aumento do crédito direcionado e dúvidas sobre a estabilização da dívida pública podem elevar a taxa de juros neutra da economia. Na prática, isso exigiria juros mais altos para produzir o mesmo efeito de controle sobre a inflação.
Atividade e inflação já mostram efeito dos juros altos
A ata trouxe sinais mais claros de que a política monetária restritiva está funcionando. O Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre confirmou a perda de ritmo, especialmente nos setores e componentes da demanda mais sensíveis aos juros.
O crédito livre de prazo mais longo, no qual as instituições definem as condições dos empréstimos, também começou a desacelerar. Para Caio Megale, economista-chefe da XP, a mudança reforça que a economia entrou em uma fase mais evidente de enfraquecimento.
Na inflação, o índice cheio e a média dos núcleos perderam força e ficaram abaixo do teto da meta, de 4,5%, embora ainda estejam acima do centro, de 3%. Esses dados normalmente favorecem novos cortes, mas não eliminam a cautela do Banco Central.
Expectativas continuam sendo o principal obstáculo
O Copom destacou que as expectativas de inflação permanecem acima da meta em todos os horizontes analisados. Quando empresas, consumidores e investidores esperam inflação mais elevada no futuro, reajustes de preços e salários podem se antecipar, dificultando a convergência ao objetivo oficial.
Por isso, o Comitê avalia que expectativas desancoradas exigem uma política monetária mais restritiva e por mais tempo. A ata sugere espaço para continuar reduzindo a Selic, mas não sinaliza que o Banco Central esteja disposto a acelerar o ritmo.
Mercado vê pelo menos mais um corte em 2026
O Relatório Focus de 21 de setembro passou a indicar Selic de 13,50% ao ano no fim de 2026, abaixo dos 13,75% projetados até a semana anterior à reunião. A leitura embute ao menos uma redução de 0,25 ponto percentual, em novembro ou dezembro.
A XP trabalha com um cenário mais favorável aos cortes e projeta a taxa em 13,25% no encerramento de 2026. Para 2027, a instituição considera possível uma redução de 0,50 ponto a partir da segunda reunião do ano, levando a Selic a 11,50% em meados do período.
O que observar até a próxima decisão
Para quem investe, juros elevados por mais tempo tendem a sustentar a atratividade de novas aplicações de renda fixa, enquanto cortes reduzem gradualmente a remuneração oferecida por esses papéis. Na bolsa, a perspectiva de juros menores pode favorecer empresas mais dependentes de crédito e consumo, mas mudanças no dólar e nos juros futuros também alteram as avaliações dos ativos.
Para consumidores e empresas, a queda da Selic pode baratear empréstimos e financiamentos com o tempo, embora esse repasse não seja imediato. O próximo passo dependerá da evolução da inflação, das expectativas, da atividade, das decisões de bancos centrais no exterior e, cada vez mais, da sinalização dada pela eleição sobre o rumo fiscal do país.
Impacto para a sociedade
A decisão sobre a Selic afeta diretamente o custo de empréstimos, financiamentos e cartões, além do rendimento de aplicações de renda fixa. Se os juros permanecerem altos por mais tempo, o crédito tende a continuar caro e o consumo, mais contido; se os cortes avançarem, o efeito pode aparecer gradualmente na atividade econômica e nas condições de financiamento.
