Às vésperas do primeiro turno das eleições, o mercado voltou a se dividir sobre um corte da Selic em novembro: as apostas embutidas nos juros apontavam, nesta sexta-feira (2), 50% de chance de redução de 0,25 ponto percentual e 50% de manutenção da taxa em 13,75% ao ano. A incerteza importa porque a decisão do Banco Central influencia o custo do crédito e o rendimento de aplicações financeiras.
Curva de juros deixa decisão de novembro em aberto
As probabilidades são estimadas pela curva de juros, que reúne as taxas negociadas para diferentes prazos e reflete as expectativas dos participantes do mercado. Elas não são uma decisão antecipada do Comitê de Política Monetária (Copom): indicam que, naquele momento, os investidores estavam igualmente divididos entre um novo corte de 0,25 ponto percentual e a manutenção da Selic em 13,75% ao ano.
Para dezembro, a curva apontava apenas 10% de chance de redução da taxa básica. A diferença entre as apostas para novembro e dezembro mostra que a expectativa de um corte não era vista como uma sequência garantida. As projeções podem mudar conforme novas informações econômicas e políticas entram nos preços dos ativos.
Eleição aumenta a cautela dos investidores
Com o primeiro turno marcado para domingo (4), operadores adotaram postura mais cautelosa. As pesquisas citadas indicavam uma disputa presidencial acirrada entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), praticamente empatados. A proximidade da votação trouxe incerteza adicional justamente quando o mercado tentava avaliar os próximos passos dos juros.
O resultado eleitoral pode alterar as expectativas sobre a condução da política econômica, inclusive as avaliações sobre contas públicas e inflação. Isso importa para os juros porque, se os investidores enxergam maior risco ou pressão inflacionária adiante, podem exigir taxas mais altas para emprestar dinheiro por prazos longos. A cautela, porém, não significa que o mercado já tenha definido uma direção após a votação.
Dados fracos de emprego nos EUA deram alívio breve
O relatório de emprego americano, conhecido como payroll, mostrou a abertura de 29 mil vagas em setembro, abaixo do esperado pelo mercado. A taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,2%. Como os dados de trabalho ajudam o Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, a avaliar a economia, o resultado elevou para 80% a aposta de manutenção dos juros americanos.
As taxas dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, chamados Treasuries, recuaram após a divulgação. Isso ajudou a reduzir em até 5 pontos-base os juros brasileiros em prazos intermediários durante a manhã. O alívio, contudo, perdeu força ao longo do dia: a preocupação com a eleição voltou a pesar nas negociações locais.
Taxas longas subiram enquanto a curta ficou estável
À tarde, a taxa do contrato de DI para janeiro de 2027 operava perto da estabilidade, em 13,545%. Já a taxa para janeiro de 2031 subia 4 pontos-base, para 14,050%, e a de janeiro de 2036 avançava 10 pontos-base, para 14,175%. Um ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual.
As taxas para prazos mais distantes refletem expectativas sobre juros, inflação e riscos ao longo do tempo, e não apenas a próxima decisão do Copom. Por isso, a alta nos contratos longos pode coexistir com a possibilidade de um corte em novembro: investidores podem admitir uma redução próxima sem abandonar a cautela sobre o cenário futuro.
O que acompanhar até a decisão do Copom
Para quem investe, a divisão sugere que os preços de ativos ligados aos juros podem continuar sensíveis tanto ao cenário eleitoral quanto a novos dados econômicos. Uma mudança nas expectativas pode afetar a rentabilidade de títulos prefixados e a avaliação de ações, mas não determina, por si só, o resultado de cada aplicação.
Para consumidores e empresas, um eventual corte da Selic tende a reduzir gradualmente o custo do crédito, embora taxas de empréstimos não mudem automaticamente no mesmo ritmo. A manutenção prolongaria as condições atuais. O próximo ponto de atenção é como o resultado do primeiro turno e as informações disponíveis até a reunião de novembro influenciarão a avaliação do Banco Central.
Impacto para a sociedade
A Selic influencia o custo de empréstimos e financiamentos e a remuneração de aplicações de renda fixa. A divisão do mercado não muda a taxa cobrada hoje, mas mostra que ainda há incerteza sobre quando o crédito pode começar a ficar mais barato.
