A economia brasileira ficou pior do que o projetado pelo governo em 67,5% dos casos analisados nos Orçamentos de 2017 a 2026. O levantamento comparou as previsões do Ploa (Projeto de Lei Orçamentária Anual) para PIB, inflação, dólar e Selic com os resultados efetivamente registrados, mostrando que as estimativas usadas para planejar as contas públicas frequentemente foram otimistas ou subestimaram riscos.
Dólar e inflação foram os indicadores que mais decepcionaram
O dólar médio ficou acima da projeção oficial em 8 dos 10 anos analisados. A inflação medida pelo IPCA superou a estimativa do governo em 7 ocasiões. Na prática, isso significa que os preços e o custo de produtos ou insumos ligados ao exterior avançaram mais do que o previsto em boa parte do período.
A Selic média também ficou acima da previsão em 6 dos 10 anos. Juros maiores encarecem empréstimos para famílias e empresas, reduzem o ritmo de consumo e investimento e aumentam a despesa do governo com a dívida pública. No caso do PIB, o resultado foi considerado pior quando o crescimento ficou abaixo do projetado, o que ocorreu igualmente em 6 dos 10 anos.
Erros nas previsões afetam diretamente o Orçamento
As projeções do Ploa são usadas para estimar a arrecadação, definir despesas e estabelecer metas fiscais. Quando o PIB cresce menos, a atividade econômica gera menos receitas para o governo. Se a inflação ou a Selic ficam mais altas, aumentam as despesas com juros e podem surgir pressões por reajustes em programas e contratos públicos.
O economista José Roberto Afonso, do IDP, afirma que no passado era comum o governo trabalhar com estimativas mais favoráveis para inflação e crescimento. A estratégia ajudava a evitar reações negativas do mercado e reduzia alterações feitas pelo Congresso, além de deixar mais espaço para remanejamentos durante o ano. Esse espaço diminuiu com o fortalecimento das assessorias legislativas e das emendas obrigatórias.
Governo e mercado também podem errar
Para Afonso, a avaliação dos erros deveria comparar as previsões oficiais com as do mercado, já que os números de PIB e inflação muitas vezes acompanham as expectativas do Boletim Focus de julho do ano anterior. O economista Gabriel Leal de Barros considera que o Ploa costuma utilizar premissas que não representam necessariamente o cenário mais provável.
Um exemplo é 2025. No Ploa elaborado em 2024, o governo previa crescimento de 2,6%, IPCA de 3,3%, dólar médio de R$ 5,19 e Selic média de 9,61%. Os resultados foram PIB de 2,3%, inflação de 4,25%, dólar a R$ 5,48 no fim do ano e Selic de 15% no mesmo período. O Focus também havia errado algumas projeções, reforçando que as estimativas privadas não são uma referência infalível.
Projeções para 2027 estão acima das expectativas do mercado
Para 2027, o governo trabalha com crescimento de 2,4% do PIB. A XP estima expansão de apenas 1%. Caio Megale, economista-chefe da instituição, considera os parâmetros oficiais adequados, mas vê risco de a atividade crescer menos, reduzindo a arrecadação e ampliando o déficit público.
O Focus prevê crescimento menor e inflação maior do que os números usados no Orçamento. Gabriel Leal de Barros defende o aprimoramento do processo orçamentário e da elaboração dos cenários, enquanto Megale ressalta que o setor privado também erra ao projetar a economia.
O que o histórico indica para investidores e consumidores
O levantamento não permite prever sozinho o comportamento da inflação, dos juros ou do câmbio, mas mostra que as premissas do Orçamento precisam ser acompanhadas com cautela. Para quem investe, desvios relevantes podem alterar expectativas de juros, preços de títulos, ações e câmbio. Para quem consome ou trabalha, crescimento menor e inflação maior podem significar crédito mais caro, perda de renda real e menor dinamismo no emprego.
O próximo ponto de atenção será a diferença entre os números oficiais para 2027 e os dados efetivamente observados ao longo do ano. Quanto maior o desvio, maior a necessidade de revisar receitas, despesas e metas fiscais durante a execução do Orçamento.
Impacto para a sociedade
Projeções erradas podem afetar a arrecadação, o nível de gastos públicos e o custo dos juros pagos pelo governo. Para a população, isso pode se refletir em maior pressão sobre impostos, serviços públicos, inflação e crédito, dependendo de como as contas públicas forem ajustadas.
