O dólar à vista avançou 0,90% e chegou a R$ 5,209 na venda por volta das 11h30 desta sexta-feira (28), enquanto o Ibovespa abandonou a alta inicial e passou a cair 0,28%, aos 174.644,05 pontos. A mudança ocorreu após declarações de Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve, reforçarem no mercado a possibilidade de uma nova alta dos juros dos Estados Unidos em setembro.

Falas de Warsh mudam as apostas para setembro

Durante o simpósio de Jackson Hole, Warsh afirmou que o Fed ainda terá “trabalho a fazer” caso a inflação não avance rapidamente em direção à meta de 2%. O dirigente também disse que o progresso dos últimos dois anos foi modesto e reiterou que o objetivo de inflação é firme e não será alterado.

Após o discurso, a ferramenta FedWatch, do CME Group, passou a indicar 55,5% de probabilidade de elevação de 0,25 ponto percentual na reunião de setembro. Antes das falas, essa possibilidade era estimada em 35,7%. A chance de manutenção dos juros na faixa de 3,50% a 3,75% caiu de 64,3% para 44,5%.

Por que juros americanos mais altos pressionam o real

Quando aumenta a expectativa de retorno dos títulos e investimentos nos Estados Unidos, parte dos recursos globais pode migrar para ativos americanos, considerados mais atrativos. Esse movimento tende a fortalecer o dólar diante de outras moedas e reduz a demanda por ativos de países emergentes, como o Brasil.

O diferencial entre os juros brasileiros e americanos ainda é relevante: a Selic está em 14% ao ano, ante uma faixa de 3,50% a 3,75% nos Estados Unidos. Porém, a perspectiva de alta do Fed e de possíveis cortes de juros no Brasil diminui essa vantagem relativa, o que ajuda a explicar a pressão sobre o câmbio.

Ibovespa e Wall Street reagem com volatilidade

O principal índice da bolsa brasileira atingiu a mínima intradiária de 174.644,05 pontos, com baixa de 0,28%, depois de começar o pregão em território positivo. A alta dos juros americanos tende a pesar sobre ações porque eleva o custo de financiamento e reduz o valor presente dos lucros esperados pelas empresas.

Em Nova York, o Dow Jones chegou a cair 0,09%, o S&P 500 recuou 0,06% e o Nasdaq perdeu 0,14%. Os três índices, contudo, voltaram a operar no campo positivo pouco depois, mostrando que a reação em Wall Street foi mais volátil do que persistente até aquele momento.

Câmbio e juros locais refletem o novo cenário

O índice DXY, que compara o dólar com uma cesta de seis moedas fortes, atingiu 99,593 pontos, alta de 0,44%. No mercado futuro brasileiro, o contrato mais negociado, com vencimento em setembro, subia 0,59%, a R$ 5,195.

As taxas dos contratos de DI, que refletem as expectativas para os juros brasileiros, avançaram principalmente nos prazos médios e longos, com alta de até nove pontos-base. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de longo prazo também oscilaram, em um ambiente de dúvidas sobre o compromisso do Fed com o combate à inflação.

Inflação e emprego serão os próximos sinais

O índice de preços de gastos com consumo pessoal, o PCE, indicador preferido pelo Fed, acumulou alta anual de 3,7% até julho. O número permanece acima da meta de 2% e dá respaldo à preocupação expressa por Warsh, especialmente em um momento de pressão sobre os títulos americanos.

No Brasil, o mercado ainda aguardava a divulgação do Caged de julho, prevista para as 14h30. Pela manhã, o IBGE informou que os preços ao produtor caíram 0,83% em julho ante junho, embora o acumulado em 12 meses ainda mostrasse alta de 1,94%. Esses dados podem ajudar a calibrar as expectativas para inflação, juros e câmbio nas próximas sessões.

Para quem investe, o episódio reforça a sensibilidade de bolsa, dólar e juros às decisões do Fed e aos discursos de seus dirigentes. Para consumidores e empresas, uma moeda americana mais forte pode elevar custos de importados e pressionar preços, enquanto o próximo movimento dependerá dos dados de inflação e emprego dos dois países.

Impacto para a sociedade

A possibilidade de juros mais altos nos Estados Unidos pode fortalecer o dólar e encarecer produtos importados, viagens e alguns custos das empresas brasileiras. Se o câmbio pressionar a inflação, o cenário também pode influenciar as decisões futuras sobre juros no Brasil.