O dólar comercial subiu 0,66% nesta sexta-feira (28) e fechou a R$ 5,196, enquanto o Ibovespa avançou 0,30%, aos 175.664,62 pontos. A bolsa resistiu à pressão externa graças principalmente à Petrobras, que subiu 1,99% e ajudou o índice a alcançar a oitava alta consecutiva, em um pregão marcado pela cautela com os juros dos Estados Unidos.

Fala do Fed fortaleceu o dólar no mercado global

O movimento cambial refletiu a reação dos investidores ao discurso de Kevin Warsh, presidente do Federal Reserve (Fed), no simpósio de Jackson Hole. Ele afirmou que o banco central americano ainda terá “trabalho a fazer” caso a inflação subjacente não esteja avançando de forma clara e rápida para a meta de 2%.

A declaração reduziu as expectativas de cortes de juros nos Estados Unidos e aumentou as apostas de uma elevação já em setembro. A ferramenta FedWatch indicava, perto do fechamento, 57,5% de probabilidade de alta de 0,25 ponto percentual, para uma faixa entre 3,75% e 4% ao ano, ante 35,7% antes do discurso.

Juros americanos mais altos pressionaram ativos brasileiros

Quando os juros dos Estados Unidos sobem ou permanecem elevados por mais tempo, os títulos americanos tendem a oferecer uma remuneração maior e atraem recursos globais. Isso fortalece o dólar e reduz, em parte, a atratividade de mercados emergentes, como o Brasil. O índice DXY, que mede a moeda americana contra uma cesta de divisas, avançava 0,50% no fim da tarde.

O efeito também apareceu em Wall Street: o S&P 500 caiu 0,25%, o Nasdaq recuou 0,52% e o rendimento do título americano de dez anos subiu de 4,672% para 4,724%. Ainda assim, o fluxo de estrangeiros para a bolsa brasileira continuou positivo pelo quarto pregão seguido, com entrada líquida de R$ 1,3 bilhão no último dado disponível.

Dados de emprego abriram espaço para cortes na Selic

No cenário doméstico, o Brasil criou 58.568 empregos formais em julho, resultado abaixo das expectativas e o pior para o mês desde o início da série, em 2020. A leitura sugere uma desaceleração da atividade econômica, após meses de política monetária restritiva.

O dado pressionou para baixo os juros futuros, taxas negociadas para contratos com vencimento adiante. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 chegou a 13,615%, contra 13,630% no fechamento anterior. A interpretação foi de que o enfraquecimento do emprego pode dar espaço para novos cortes da Selic, atualmente em 14% ao ano.

Petrobras sustentou a bolsa apesar da queda do petróleo

Petrobras ON e PN avançaram 1,99% cada, mesmo com a fraqueza dos preços do petróleo no exterior. As ações receberam impulso após o Bradesco BBI elevar a recomendação dos papéis de neutra para compra, citando a queda recente das cotações e o crescimento da produção acima do esperado.

Também ficaram no radar a possibilidade de aumento dos preços dos combustíveis após as eleições e a prorrogação, por 60 dias, do imposto sobre a exportação de petróleo. Bancos contribuíram para o resultado, com alta de 0,81% no índice financeiro. Na direção contrária, Vale ON caiu 0,67% e MRV recuou 5,12%.

O que o fechamento indica para os próximos dias

Na semana, o Ibovespa acumulou alta de 2,71%, reduzindo a perda de agosto para 1,31% e elevando o ganho no ano para 9,02%. O dólar, por sua vez, avançou 1% no período, mostrando que o desempenho positivo da bolsa não eliminou a sensibilidade do mercado brasileiro ao cenário internacional.

Para quem investe, o próximo foco será a combinação entre as decisões do Fed, novos dados de inflação e atividade nos Estados Unidos e a condução da Selic pelo Banco Central. Para consumidores e trabalhadores, juros menores podem baratear gradualmente o crédito e estimular a economia, enquanto um dólar mais forte encarece importados e pode pressionar custos. A intensidade desses efeitos dependerá da duração do movimento cambial e da confirmação, ou não, de uma desaceleração no mercado de trabalho.

Impacto para a sociedade

A alta do dólar pode encarecer produtos importados e pressionar custos de empresas, combustíveis e alguns preços ao consumidor, embora a variação de um único dia não determine sozinha a inflação. Já o mercado de trabalho mais fraco aumenta a possibilidade de cortes na Selic, o que pode reduzir o custo de novos empréstimos, mas também diminuir a remuneração de aplicações atreladas aos juros.