O dólar ficou atrás do CDI nos últimos dez anos, mas isso não elimina a importância de diversificar parte da carteira no exterior. Entre os períodos comparados, a moeda americana subiu 88% contra o real, enquanto uma aplicação que pagasse 120% do CDI acumulou retorno de 171,1%. O contraste mostra que os juros elevados favoreceram a renda fixa brasileira, mas também podem esconder o risco de manter todo o patrimônio concentrado em reais.
Como a renda fixa brasileira superou o dólar
O CDI acompanha de perto a taxa básica de juros e serve como referência para diversos investimentos de renda fixa. Com juros nominais elevados durante boa parte da última década, aplicações que pagavam acima desse indicador entregaram ganhos expressivos, com o patrimônio inicial multiplicado por aproximadamente 2,7 vezes no caso dos 120% do CDI.
O resultado do dólar, isoladamente, foi bem inferior: uma alta de 88% no período. Isso significa que, para quem olhou apenas o retorno nominal em reais, a moeda americana perdeu espaço para a renda fixa. A comparação, porém, não mede exatamente a mesma função: o CDI remunera o capital aplicado, enquanto o dólar também funciona como proteção contra a perda de valor da moeda brasileira.
O retorno da bolsa americana ampliou a diferença
A distância foi ainda maior para quem tinha exposição ao mercado acionário dos Estados Unidos. O S&P 500, principal índice da Bolsa americana, acumulou alta de 502,8% em reais nos dez anos analisados. No mesmo intervalo, o Ibovespa avançou 140,2%.
Esse desempenho inclui tanto a valorização das ações americanas quanto o efeito da conversão para reais. Quando o dólar sobe, o valor, em moeda brasileira, de um investimento estrangeiro também é favorecido. O mecanismo funciona nos dois sentidos: uma queda do dólar pode reduzir o retorno convertido para reais, mesmo que o ativo no exterior permaneça estável.
Juros altos não eliminam o risco de concentração
O CDI elevado representa uma remuneração maior, mas também reflete um ambiente de inflação mais pressionada, incerteza fiscal e maior volatilidade cambial. Por isso, o número nominal de 14% ao ano, por exemplo, não deve ser confundido automaticamente com aumento equivalente do poder de compra.
Entre 2016 e 2025, o IPCA acumulou 64,76%, acima dos 39% registrados pelo CPI, índice de inflação dos Estados Unidos, no mesmo período. Segundo os dados apresentados, R$ 100 perderam 39% do poder de compra em dez anos. Assim, o investidor pode ganhar em termos nominais e ainda enfrentar perda relativa diante de produtos, viagens e ativos referenciados no exterior.
Por que o dólar continua relevante para o brasileiro
A discussão sobre uma possível perda de importância global do dólar não muda o papel que a moeda ainda exerce. Cerca de 85% das transações cambiais internacionais são realizadas em dólar, e aproximadamente 60% das cédulas americanas circulam fora dos Estados Unidos.
No Brasil, a exposição é indireta e alcança também quem recebe e investe exclusivamente em reais. Petróleo, trigo e café, entre outras commodities, têm preços influenciados pela moeda americana. Estimativas do Centro de Estudos em Finanças da FGV indicam que entre 16% e 18% da cesta de consumo brasileira sofre os efeitos da variação cambial.
O que os números indicam para a carteira
Os resultados não significam que o dólar ou a Bolsa americana substituam a renda fixa local. O CDI teve vantagem sobre a moeda no período analisado, enquanto o S&P 500 apresentou retorno muito superior, mas com exposição à oscilação das ações e do câmbio.
A principal implicação é o risco de depender de uma única economia, moeda ou classe de ativo. A diversificação internacional pode funcionar como contraponto aos riscos brasileiros e ajudar a preservar poder de compra em cenários de real mais fraco. Para quem consome, trabalha ou investe, o ponto seguinte é acompanhar simultaneamente juros, inflação e câmbio, sem avaliar o desempenho de uma aplicação apenas pelo retorno nominal em reais.
Impacto para a sociedade
A variação do dólar afeta diretamente o custo de produtos e serviços no Brasil, porque commodities como petróleo, trigo e café são negociadas na moeda americana. Mesmo quem não investe no exterior pode sentir esse efeito no supermercado, no transporte e nas contas do dia a dia.
