A possível suspensão das exportações de diesel dos Estados Unidos pode elevar custos e afetar transportadoras brasileiras, mas o impacto esperado sobre as companhias do setor é limitado, segundo avaliação de analistas. A medida ainda está em discussão e, caso avance, os efeitos dependerão da duração da restrição, da disponibilidade de combustível e da capacidade das empresas de repassar despesas aos clientes.

Proposta dos EUA ainda não é uma medida concreta

O plano em discussão nos Estados Unidos prevê proibir por 90 dias as exportações de diesel. O Brasil importa combustíveis refinados e tem nos EUA uma fonte importante de diesel; as compras da Rússia foram suspensas após o início do conflito com a Ucrânia. Uma restrição americana poderia, portanto, aumentar a preocupação com oferta e preços no país.

O risco, porém, não se traduz automaticamente em uma alta de custos para todas as transportadoras. A avaliação do Bradesco BBI é que a exposição varia conforme a atividade de cada empresa e as regras de seus contratos. Como a proposta não foi formalizada, ainda há espaço para negociação, o que reduz o risco imediato.

Contratos protegem parte dos custos da Rumo

Para a Rumo, o efeito previsto sobre o EBITDA — indicador que mede o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — é limitado no curto prazo. Uma parcela relevante das operações está contratada até o fim do ano, e nesses acordos o custo do diesel é repassado diretamente.

Se uma alta do combustível persistir, o frete rodoviário pode encarecer e tornar mais competitivas algumas rotas atendidas pela ferrovia. O transporte rodoviário representa cerca de 50% da extensão da rota Sorriso-Miritituba-Barcarena e aproximadamente 25% da ligação Sorriso-Rondonópolis-Santos. Eventuais subsídios do governo também poderiam reduzir o efeito sobre o preço efetivamente pago pelo diesel.

JSL pode renegociar, mas clientes da Vamos ficam expostos

Na JSL, a possibilidade de renegociar contratos pode ajudar a limitar o efeito do diesel sobre as margens. A empresa já mostrou essa capacidade em março e abril, durante um pico de preços. Ainda assim, no curto prazo, oscilações dos custos podem pressionar os resultados enquanto os reajustes não são negociados.

Na Vamos, o combustível é um custo associado à operação dos clientes. A alta de cerca de 22% observada em março e abril deste ano não levou a mais retomadas de veículos pela companhia: o valor caiu de R$ 220 milhões por trimestre para R$ 189 milhões. Uma nova alta não deve, por si só, elevar esse indicador, mas pode aumentar as provisões para inadimplência se clientes tiverem dificuldade para pagar.

Escassez também pode atingir locadoras e máquinas

Nas locadoras de máquinas pesadas, o combustível costuma ser repassado aos clientes. O risco maior aparece se houver aumentos expressivos ou falta de diesel, porque isso pode prejudicar a atividade de quem aluga os equipamentos. Nesse cenário, além de crescer o risco de inadimplência, as receitas com a venda de máquinas usadas poderiam ser afetadas.

Já para locadoras de veículos, a exposição direta é menor, pois poucos carros leves usam diesel. Uma escassez ainda poderia atrapalhar a produção e a distribuição de veículos no Brasil. Se isso pressionar as margens das montadoras, os descontos em carros novos podem diminuir; por outro lado, preços mais sustentados de usados tendem a favorecer esse segmento das locadoras.

O que acompanhar se a restrição avançar

Para quem investe, trabalha no transporte ou depende de serviços de entrega, o ponto central é acompanhar se a proposta americana se transforma em decisão e como isso afeta a oferta e o preço do diesel. A transmissão de custos para clientes, a duração de contratos e a capacidade de renegociação ajudam a explicar por que o efeito não é igual entre as empresas.

Por ora, a análise disponível não aponta um choque generalizado para as transportadoras. Se a restrição for adotada e persistir, os efeitos podem se ampliar, sobretudo para empresas e clientes com menor capacidade de absorver ou repassar custos. Até lá, a incerteza sobre a medida limita conclusões mais firmes.

Impacto para a sociedade

Se a restrição reduzir a oferta de diesel e encarecer o combustível, o transporte de cargas pode ficar mais caro, com possível repasse aos preços de produtos. Por enquanto, a medida ainda está em discussão e o impacto sobre as empresas de transporte é considerado limitado.