Discriminação e desigualdade podem reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em até 0,8%, estima um estudo dos economistas Michael França e Daniel Duque, em parceria com o Instituto Ethos e o Núcleo de Estudos Raciais do Insper (NERI). O levantamento mostra que o impacto vai além das políticas de diversidade nas empresas: violência, barreiras profissionais e baixa mobilidade social reduzem a oferta de trabalhadores, a produtividade e a capacidade de crescimento da economia.
Como a exclusão reduz a capacidade produtiva
O estudo relaciona a discriminação à perda de capital humano, que é o conjunto de conhecimentos, habilidades e experiência dos trabalhadores. Quando determinados grupos enfrentam mais obstáculos para entrar ou permanecer no mercado, uma parcela da força de trabalho deixa de alcançar seu potencial — e as empresas passam a operar com um universo menor de talentos disponíveis.
Esse efeito também aparece antes da contratação. A violência pode interromper a formação educacional e profissional de pessoas que ainda não chegaram ao mercado. A morte de um jovem negro de baixa escolaridade, por exemplo, representa uma perda individual estimada em R$ 550 mil de produtividade futura que deixa de ser incorporada à economia.
Violência e falta de estrutura afastam mulheres do trabalho
As desigualdades também interferem na participação feminina na força de trabalho. De acordo com os dados reunidos pelos pesquisadores, a criminalidade e a falta de infraestrutura social podem afastar até 7 pontos percentuais das mulheres do mercado.
Na prática, isso reduz a oferta de mão de obra para as empresas e a renda disponível nas famílias. Com menos pessoas trabalhando ou buscando emprego, a economia perde produção potencial, enquanto os domicílios ficam com menor capacidade de consumo e de formação de patrimônio.
O custo econômico da desconfiança nas empresas
Outra frente analisada é o chamado “custo invisível da desconfiança”. Em ambientes com baixa coesão social, empresas tendem a gastar mais com supervisão, contratos, mecanismos de controle e proteção para reduzir riscos nas relações comerciais e trabalhistas.
Ricardo Young, empresário e cofundador do Instituto Ethos, afirma que a confiança funciona como uma infraestrutura invisível: quando está presente, facilita a cooperação, acelera decisões e reduz a necessidade de fiscalização. Quando falta, cada transação precisa incorporar uma margem adicional de proteção, pressionando as despesas e as margens das companhias.
Impacto também aparece na arrecadação e na competitividade
O levantamento estima em R$ 14,6 bilhões por ano a perda de arrecadação fiscal associada à discriminação corporativa. O mecanismo é direto: menos emprego, menor produtividade e salários mais baixos reduzem a atividade econômica e, consequentemente, a base sobre a qual incidem impostos.
Para Ana Lucia Melo, diretora-adjunta do Instituto Ethos, a desigualdade deixou de ser apenas uma questão ética ou de reputação. Ela também afeta a eficiência operacional, restringe o mercado consumidor e limita a competitividade das próprias organizações.
O que o estudo indica para empresas, trabalhadores e investidores
Michael França avalia que o combate à exclusão deve ser incorporado às decisões econômicas das companhias, e não tratado apenas como uma agenda de diversidade, equidade e inclusão. A lógica apresentada é que ambientes mais inclusivos ampliam o acesso a profissionais, preservam capital humano e podem reduzir custos associados à fiscalização e à proteção.
Para quem trabalha, consome ou investe, a principal implicação é que desigualdade e discriminação produzem efeitos concretos sobre emprego, renda, arrecadação e crescimento. O estudo estima o custo agregado, mas não apresenta uma mudança imediata em preços de ativos ou uma medida específica de política econômica; o próximo passo é acompanhar como empresas e governos transformarão essas evidências em ações capazes de ampliar a participação no mercado e a produtividade.
Impacto para a sociedade
A desigualdade afeta o brasileiro comum ao limitar oportunidades de trabalho, reduzir a renda das famílias e diminuir a arrecadação que financia serviços públicos. A violência e a falta de infraestrutura social também podem afastar mulheres do mercado e impedir que jovens desenvolvam seu potencial produtivo, com efeitos sobre emprego, consumo e crescimento econômico.
