Empresas e países estão aproveitando o degelo do Ártico para testar novas rotas comerciais entre a Ásia e a Europa, enquanto a Rússia amplia a infraestrutura para transportar petróleo pela região. A Rota Marítima do Norte, que acompanha a costa russa, pode reduzir a viagem para 20 a 22 dias, ante cerca de 40 dias pelo Canal de Suez, embora ainda tenha custos maiores, janela operacional curta e dependência de autorização russa.

Cargas chinesas e sul-coreanas começam a usar a passagem

Em agosto, navios de carga da China e da Coreia do Sul utilizaram a rota para chegar ao Reino Unido. A empresa chinesa Sea Legend programou oito saídas entre 15 de agosto e 3 de outubro, com sete navios dedicados à operação. As duas primeiras viagens estavam completas e levaram principalmente produtos industriais e equipamentos relacionados à transição energética.

Cada embarcação foi planejada para transportar cerca de 1.500 TEU, medida equivalente a contêineres de 20 pés. A primeira viagem levou 1.370 TEU, incluindo cargas de empresas como Geely, Sungrow e CATL. A fabricante de baterias EVE Energy também usou a rota em um teste logístico para enviar produtos à Alemanha e à Hungria.

A Coreia do Sul enviou o navio PanStar Acro, com capacidade para 2.758 TEU, de Busan ao Reino Unido. A embarcação transportou 837 TEU, entre produtos químicos, carros usados e peças automotivas. O governo sul-coreano avalia distância, duração, consumo de combustível e custos antes de ampliar o uso da passagem.

Tempo menor não elimina o custo e os riscos

A redução do tempo em trânsito pode diminuir o capital necessário para manter estoques, porque as mercadorias ficam menos tempo imobilizadas. Esse ganho, porém, ainda não compensa todos os obstáculos. Os fretes cobrados pela Sea Legend na temporada de 2026 estão aproximadamente duas vezes acima dos valores de sua primeira viagem de teste, realizada em 2025.

A escala também é pequena diante das rotas tradicionais. A Rota Marítima do Norte registrou 103 trânsitos em 2025, enquanto mais de 24 mil navios passaram pelo Canal de Suez em 2024. A navegação depende das condições do gelo, de uma infraestrutura portuária mais limitada e de uma temporada comercial estimada em apenas três ou quatro meses, principalmente entre agosto e outubro.

Projeto russo leva petróleo ao litoral do Ártico

O uso da passagem por navios de contêineres ocorre ao mesmo tempo em que a Rússia inicia uma nova frente de exportação de petróleo. A Rosneft começou em 6 de setembro o projeto Vostok Oil, com o primeiro carregamento no porto de Bukhta Sever, no Mar de Kara.

O petróleo chega ao terminal por um oleoduto de 790 quilômetros, que conecta os campos de Vankor e Payakha. A estrutura foi projetada para transportar até 100 milhões de toneladas por ano. O primeiro embarque foi feito pelo navio-tanque Valentin Pikul, adaptado para operar em condições de gelo.

Produção deve crescer, mas depende de navios especiais

A Rosneft prevê produzir 30 milhões de toneladas de petróleo no segundo semestre de 2027 e alcançar 50 milhões de toneladas em 2030. A empresa estima em 7 bilhões de toneladas a base de recursos associada ao projeto, que foi planejado para ampliar as exportações russas aos mercados da Ásia-Pacífico.

O principal limite logístico é a quantidade de navios capazes de transportar petróleo em águas congeladas. Como a temporada termina rapidamente no início de outubro, o período disponível para os embarques é restrito. A Rússia pretende ampliar sua frota de quebra-gelos e, segundo a Rosneft, Vladimir Putin afirmou que o país planeja adicionar quatro unidades nucleares até 2030.

O que observar na próxima temporada

Os próximos testes indicarão se a economia de tempo consegue compensar fretes mais altos, infraestrutura limitada e risco operacional. Para empresas, a rota pode representar uma alternativa adicional para reduzir prazos em determinados períodos do ano; para a Rússia, cria um caminho próprio para escoar petróleo rumo à Ásia.

O avanço ainda não transforma o Ártico em concorrente direto de Suez ou do Cabo da Boa Esperança. A expansão dependerá da duração do degelo, da disponibilidade de navios apropriados, da autorização russa e da capacidade de manter operações regulares além dos atuais poucos meses de navegação.