A deflação de 0,32% no IPCA de agosto reforçou, na avaliação de analistas, a expectativa de continuidade dos cortes da Selic, embora o resultado exija cautela por ter sido influenciado por itens temporários. Para Laís Costa, analista da Empiricus Research, o dado oferece ao Banco Central espaço técnico para reduzir os juros mesmo diante das incertezas relacionadas à transição de governo em outubro.
Inflação veio abaixo da previsão do mercado
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) caiu 0,32% em agosto, depois de alta de 0,07% em julho e de queda de 0,11% em agosto de 2025. Foi a menor taxa para um mês desde agosto de 2022, quando o indicador recuou 0,36%.
Em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,44% até julho para 4,22% até agosto, o menor acumulado desde março de 2026, quando estava em 4,14%. O resultado também ficou abaixo da projeção de queda de 0,23% indicada pelo mercado no Boletim Focus de 8 de setembro.
Conta de luz explica a maior parte da deflação
O principal fator de baixa foi o grupo habitação, que recuou 1,87% no mês. A conta de energia elétrica residencial caiu, em média, 7,63% por causa do Bônus de Itaipu, crédito distribuído aos consumidores a partir do saldo positivo da comercialização da hidrelétrica.
O desconto produziu a maior deflação para um mês de agosto no grupo habitação desde o início do Plano Real. Como o bônus é concentrado na fatura de agosto, porém, a conta de luz tende a subir em setembro, o que limita a leitura do resultado como sinal de uma desinflação permanente.
Alimentos e transportes também ajudaram
Alimentação e bebidas tiveram a terceira queda consecutiva, de 0,34%, após recuos de 0,67% em julho e 0,24% em junho. Batata, cenoura, cebola, tomate, ovos e café ficaram mais baratos. Como esse grupo representa 21,5% da cesta do IPCA, seu comportamento tem impacto relevante no orçamento das famílias.
Transportes recuaram 0,86%, com destaque para as passagens aéreas, que caíram 13,17% e tiveram impacto negativo de 0,11 ponto percentual no índice. Etanol, diesel e gasolina também baixaram, enquanto o gás veicular subiu 2,62%. A analista espera que transportes e gasolina continuem contribuindo para a desinflação.
Por que o resultado favorece a queda dos juros
A inflação mais baixa reduz a pressão para que o Banco Central mantenha a Selic elevada. Juros menores diminuem o custo de crédito para famílias e empresas e podem estimular consumo, investimentos e atividade econômica. Na renda fixa, contudo, novas aplicações pós-fixadas tendem a oferecer retorno menor quando o juro básico recua; na bolsa, a queda pode favorecer ativos de risco ao reduzir o custo de financiamento e tornar os ganhos futuros relativamente mais atrativos.
Costa avaliou que o IPCA “reforça” a previsão de continuidade dos cortes. Ela também afirmou que há pouca necessidade de revisão relevante para a inflação deste ano e do próximo, embora o Focus de 14 de setembro possa incorporar ajustes, principalmente por causa dos combustíveis.
O que acompanhar antes dos próximos cortes
Apesar da deflação, a inflação projetada pelo mercado para o fim de 2026 continua em 5%, acima da meta de 3% definida pelo Conselho Monetário Nacional. O intervalo de tolerância vai de 1,5% a 4,5%. Como a meta passou a ser avaliada pela inflação acumulada nos 12 meses anteriores, o IPCA de 4,22% ainda está dentro da faixa, mas próximo do limite superior.
Outro ponto de atenção é o índice de difusão, que subiu de 50% em julho para 54% em agosto. Isso significa que 54% dos 377 produtos e serviços pesquisados tiveram aumento de preços. A alta sugere que, embora o índice cheio tenha caído, os reajustes continuam relativamente disseminados.
Para investidores e consumidores, o próximo passo será observar se a queda se mantém após o fim do bônus de Itaipu e como evoluem combustíveis, alimentos e serviços. A persistência de uma inflação mais comportada pode sustentar a redução da Selic, mas fatores temporários e a inflação ainda acima da meta recomendam evitar conclusões definitivas a partir de um único mês.
Impacto para a sociedade
A queda do IPCA reduz temporariamente o custo de vida, principalmente nas contas de luz, nos alimentos e no transporte. Se a melhora da inflação persistir, cortes da Selic podem baratear empréstimos e financiamentos, mas também reduzir os rendimentos de novas aplicações de renda fixa.
