A inflação oficial, medida pelo IPCA, caiu 0,32% em agosto de 2026, na primeira queda mensal dos preços neste ano. O resultado, melhor que o esperado pelo mercado, reduziu o índice acumulado em 12 meses para 4,22% e reforçou a discussão sobre um novo corte da Selic na reunião do Copom marcada para 15 e 16 de setembro.
Conta de luz explica a maior parte da queda
O principal vetor da deflação foi o grupo Habitação, que recuou 1,87% em agosto. Dentro dele, a energia elétrica residencial caiu 7,63% após a distribuição do bônus de Itaipu, benefício que alcançou cerca de 83,8 milhões de consumidores e retirou sozinho 0,33 ponto percentual do IPCA do mês.
O desconto, porém, é um fator específico e temporário. Com a volta das tarifas integrais, a energia pode exercer pressão novamente sobre o índice de setembro. Por isso, a queda de agosto não deve ser interpretada como uma redução generalizada e permanente dos preços.
Alimentos e transportes também aliviaram o índice
O grupo Alimentação e bebidas registrou queda de 0,34%, com recuos nos preços da batata-inglesa, cenoura, cebola e tomate. Leite, frutas e carnes, por outro lado, ficaram mais caros, indicando que a desaceleração não atingiu todos os produtos da cesta de consumo.
Em Transportes, a retração foi de 0,86%. As passagens aéreas caíram 13,17%, enquanto o etanol recuou 3,95% e a gasolina, 0,59%. Na direção contrária, o cigarro subiu 19,59%, e os grupos Saúde e cuidados pessoais e Despesas pessoais também tiveram alta.
O que o dado muda para a decisão sobre a Selic
A Selic está atualmente em 14% ao ano. A deflação de agosto aumentou a possibilidade de o Comitê de Política Monetária fazer outro corte de 0,25 ponto percentual em setembro, levando a taxa básica para 13,75% ao ano.
Juros menores reduzem o custo de empréstimos e financiamentos, mas o efeito sobre o crédito costuma aparecer gradualmente. Na renda fixa, novas aplicações podem passar a oferecer remuneração menor, enquanto títulos prefixados e papéis mais longos tendem a se beneficiar quando o mercado passa a projetar uma trajetória de juros em queda.
Inflação persistente ainda limita cortes mais rápidos
Apesar do resultado favorável, o Boletim Focus de 8 de setembro manteve a projeção de Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026 e estimou IPCA de 5% para o ano. A previsão continua acima da meta de inflação, de 3%, embora o acumulado em 12 meses esteja abaixo do teto de 4,5%.
O Banco Central também deve observar os núcleos de inflação, que excluem itens mais voláteis, e os preços de serviços. Serviços ligados à mão de obra ainda acumulam alta próxima de 5% em 12 meses, sinal de que a pressão sobre os preços mais persistentes não desapareceu.
Próximos meses serão decisivos para consumidores e investidores
O resultado de agosto melhora o ambiente para uma continuidade gradual dos cortes, mas não elimina os riscos. A retirada do bônus de Itaipu, possíveis efeitos do El Niño sobre alimentos e energia, além de oscilações no petróleo e no câmbio, podem mudar o comportamento do IPCA nos próximos meses.
Para quem investe, uma Selic menor pode favorecer ativos de prazo mais longo, mas também reduz o rendimento de novas aplicações pós-fixadas. Para consumidores e trabalhadores, a confirmação de uma inflação mais disseminada e duradoura seria importante para aliviar o orçamento e abrir espaço para crédito menos caro. A próxima decisão do Copom dependerá justamente de o alívio de agosto se repetir em componentes menos temporários.
Impacto para a sociedade
A queda do IPCA reduz temporariamente a pressão sobre o custo de vida, especialmente por causa do desconto na conta de luz e da baixa de combustíveis e alimentos. Se a inflação continuar desacelerando, o Banco Central poderá reduzir a Selic, o que tende a baratear o crédito ao longo do tempo, embora também diminua os juros de novas aplicações de renda fixa.
