A pressão do custo de vida tornou-se um obstáculo para Lula convencer os eleitores de que indicadores econômicos favoráveis representam melhora concreta para as famílias. Às vésperas da eleição do próximo mês, a disputa política também é travada na comparação entre números como emprego e inflação e a experiência cotidiana de pagar compras, contas e dívidas.

Indicadores positivos não chegam da mesma forma às famílias

O presidente tem destacado o desemprego em nível historicamente baixo, a redução da desigualdade e a desaceleração da inflação nos últimos meses. A mensagem, porém, enfrenta a percepção de quem ainda sente o orçamento apertado depois de anos de alta nos preços.

Quase metade dos brasileiros ouvidos em uma pesquisa Quaest divulgada em setembro afirmou que a economia piorou no último ano. Apenas 19% disseram que ela melhorou. O resultado ajuda a explicar por que bons números agregados não se traduzem automaticamente em apoio político.

Para o eleitor, a economia costuma ser medida pelo que consegue pagar, consumir e planejar. Assim, a melhora de um indicador nacional pode parecer distante quando a renda continua comprometida com despesas essenciais ou dívidas.

Alimentos continuam pesando mesmo com a desaceleração

A inflação dos alimentos desacelerou fortemente nos últimos meses, e os preços chegaram a recuar entre junho e agosto. Isso não apaga, contudo, o efeito acumulado de aumentos anteriores: os alimentos ainda custam bem mais do que antes da pandemia, mantendo a pressão sobre o orçamento doméstico.

Essa diferença entre o ritmo atual dos preços e o nível que eles já alcançaram é central para entender a insatisfação. Uma inflação menor significa que os preços sobem mais devagar — ou, em alguns períodos, podem cair —, mas não necessariamente que voltaram ao patamar anterior.

O trabalhador Kleyton Zacarioto, de 39 anos, diz que o movimento no açougue onde trabalha, perto do centro histórico de São Paulo, vem diminuindo há anos. Ele afirma que não votará em Lula, embora reconheça que o presidente “fez coisas boas” em governos anteriores, e resume sua frustração dizendo que quem ganha um salário mínimo não consegue crescer na vida.

Dívidas e juros reduzem o espaço no orçamento

O custo de vida não é o único fator. Em junho, o comprometimento da renda das famílias com o pagamento de dívidas, excluídos os financiamentos imobiliários, chegou a 26,6%, recorde da série citada pelo Banco Central. Quanto maior a parcela destinada a credores, menor o valor disponível para consumo e outras despesas.

A oferta de crédito fácil por fintechs, muitas vezes a taxas elevadas, e o dinheiro direcionado a apostas on-line também aparecem entre os fatores de pressão financeira. Nesse cenário, a Selic, taxa básica de juros, estava em 13,75%, entre as mais altas do mundo em termos reais, enquanto o Banco Central começava a reduzi-la gradualmente e mantinha atenção à inflação.

Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos e podem dificultar a reorganização das contas. Ao mesmo tempo, tendem a favorecer a remuneração de aplicações de renda fixa atreladas às taxas de juros; a redução gradual pode aliviar o custo do crédito, mas seus efeitos não chegam de uma só vez ao bolso.

Campanhas disputam a interpretação da economia

O senador Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na corrida eleitoral, transformou o poder de compra em um dos eixos de sua campanha e compara preços de supermercado aos do período em que seu pai, Jair Bolsonaro, ocupava a Presidência. Lula reagiu com uma página chamada “Mercado da Mentira” e uma ação no Tribunal Superior Eleitoral, acusando a campanha do senador de divulgar informações falsas sobre preços.

O embate reflete um fenômeno observado em outros países após a pandemia: indicadores macroeconômicos podem melhorar enquanto consumidores continuam avaliando a economia de forma negativa. No Brasil, a questão política é quanto dos resultados apresentados pelo governo chegou às casas e se as famílias conseguem fechar as contas.

O que o eleitor e quem investe devem observar

Para consumidores e trabalhadores, a diferença entre inflação mais baixa e preços ainda elevados seguirá sendo decisiva para a percepção de melhora. Para quem investe, a trajetória da Selic importa porque influencia o retorno de aplicações de renda fixa e o custo do dinheiro para famílias e empresas, com possíveis efeitos sobre a atividade econômica.

Até a eleição, Lula terá de sustentar que os indicadores favoráveis podem se converter em ganhos percebidos no cotidiano, enquanto seus adversários exploram o aperto do orçamento. A reação dos eleitores dependerá não só dos números econômicos, mas também de quanto a renda disponível e a capacidade de pagar as contas melhorarem na prática.

Impacto para a sociedade

O custo dos alimentos e o peso das dívidas afetam diretamente quanto sobra no orçamento para pagar contas e consumir. A Selic em 13,75% também encarece empréstimos e financiamentos, enquanto a redução gradual dos juros pode aliviar esse custo com o tempo.