A curva de juros futuros passou a precificar cerca de 90% de probabilidade de um corte de 0,25 ponto percentual na Selic em setembro e atribui 30% de chance a uma redução adicional em novembro. A mudança reforça a perspectiva de continuidade do ciclo iniciado em março, mas ainda representa uma expectativa do mercado, e não uma decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).

IPCA-15 mais fraco reforça aposta em setembro

O movimento ganhou força após a divulgação do IPCA-15 de agosto. A prévia da inflação oficial registrou deflação de 0,40% no mês, depois de uma alta de 0,06% em julho. No acumulado informado em 12 meses, a inflação desacelerou para 4,24%, acima do centro da meta de 3%, mas ainda dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos.

Uma inflação corrente mais baixa reduz, ao menos no curto prazo, a necessidade de manter os juros em nível elevado para conter a demanda e evitar a disseminação de aumentos de preços. O alívio também foi ajudado pela queda das cotações do petróleo no exterior, que pode diminuir pressões sobre combustíveis e outros custos da economia.

O que os contratos de DI estão sinalizando

As apostas aparecem nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI), usados como referência para as taxas esperadas para diferentes prazos. Pouco depois do IPCA-15, o DI para janeiro de 2027 caiu três pontos-base, de 13,680% no fechamento de terça-feira (25) para uma mínima de 13,650%. Por volta das 14h desta quarta-feira (26), operava a 13,675%.

O DI para janeiro de 2036, que reflete uma visão mais distante para os juros, chegou a recuar dois pontos-base, a 14,360%, mas estava em 14,460% por volta das 14h, ante 14,380% no fechamento anterior. A reação mais contida nos prazos longos mostra que o mercado vê espaço para cortes próximos, mas ainda mantém cautela sobre a trajetória futura da inflação e da política econômica.

Juros dos Estados Unidos limitam o alívio

O recuo dos juros brasileiros foi limitado pela alta dos Treasuries, títulos do governo americano que influenciam os preços de ativos no mundo. O índice de preços de despesas de consumo pessoal (PCE), principal medida de inflação acompanhada pelo Federal Reserve, subiu 0,2% em julho. No acumulado informado, a alta chegou a 3,7%, enquanto o núcleo avançou 3,3% em 12 meses, ambos acima da meta de 2% do banco central americano.

Por volta das 14h, o rendimento do Treasury de dois anos subia para 4,224%, e o título de dez anos avançava para 4,664%, dois pontos-base acima do fechamento anterior. Juros americanos mais altos tendem a reduzir o espaço para cortes agressivos no Brasil porque elevam a atratividade relativa dos ativos dos Estados Unidos e podem aumentar a pressão sobre o câmbio.

Selic está em 14% ao ano

A Selic está atualmente em 14% ao ano. Conforme a avaliação do economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, os contratos passaram a refletir 90% de chance de um corte de 25 pontos-base na próxima reunião do Copom. Para a reunião seguinte, em novembro, a precificação indica 30% de probabilidade de uma nova redução.

O cenário ainda depende da evolução da inflação brasileira, dos dados de atividade e do comportamento dos juros no exterior. Uma inflação mais persistente ou uma piora das condições financeiras globais pode diminuir a disposição do Banco Central para acelerar o ciclo de cortes.

O que muda para investimentos, crédito e consumo

Se os cortes forem confirmados, novas aplicações de renda fixa pós-fixadas tendem a oferecer remuneração menor, pois acompanham a Selic ou taxas próximas dela. Em contrapartida, títulos prefixados ou atrelados à inflação podem se valorizar antes do vencimento quando as taxas de mercado caem, embora também estejam sujeitos a oscilações e riscos próprios.

Para consumidores e empresas, a queda da Selic pode reduzir gradualmente o custo de empréstimos e financiamentos, mas a transmissão costuma ocorrer com defasagem e depende das condições de cada instituição. O próximo sinal relevante será a decisão do Copom em setembro, além dos dados de inflação e dos juros americanos que antecederem a reunião.

Impacto para a sociedade

A expectativa de queda da Selic pode reduzir gradualmente o custo de empréstimos e financiamentos, embora esse efeito não seja imediato. Também tende a diminuir o rendimento de novas aplicações de renda fixa atreladas aos juros, enquanto a inflação e os juros nos Estados Unidos continuam influenciando as próximas decisões do Banco Central.