Variedades agrícolas mais resistentes às mudanças climáticas já ajudam a atenuar o efeito da sazonalidade sobre a inflação, ao permitir que alimentos sejam produzidos em condições antes consideradas desfavoráveis. Um exemplo citado por especialistas é um tipo de milho desenvolvido com participação da Embrapa que demanda 25% menos água, inovação que pode ampliar a oferta e reduzir oscilações de preços em períodos de clima adverso.

Como a tecnologia reduz a pressão sobre os preços

O coordenador dos Índices de Preços da FGV IBRE, André Braz, afirma que o aprimoramento de cultivares permite colher em ambientes anteriormente inóspitos. Com uma oferta menos dependente das condições climáticas de cada estação, diminui a probabilidade de uma quebra localizada de produção provocar alta acentuada nos alimentos.

O mecanismo é direto: quando a oferta se mantém mais estável diante de uma mudança no clima, a pressão sobre os preços tende a ser menor. A tecnologia, porém, não elimina o risco. Se eventos extremos, como o El Niño, ocorrerem com maior frequência, a regularidade esperada para as safras pode ser comprometida.

Produção espalhada e logística mudam a sazonalidade

O professor sênior da FEA-USP Heron do Carmo avalia que a menor influência da sazonalidade também reflete mudanças no consumo e a maior disponibilidade de produtos. A abertura econômica e a ampliação da variedade de mercadorias permitem substituir itens quando um alimento específico fica mais caro ou escasso.

Na agricultura, a expansão de fronteiras produtivas contribuiu para esse processo. A fruticultura no Nordeste, por exemplo, passou a abastecer diferentes regiões do país, reduzindo a dependência de uma única área produtora. Avanços na infraestrutura de transporte também encurtaram o tempo de escoamento, embora ainda existam deficiências logísticas.

Frutas, batatas e tomates continuam relevantes

Mesmo com peso individual limitado nos índices de preços ao consumidor, frutas, batatas e tomates podem influenciar a inflação por causa da forte volatilidade de suas cotações. Uma alta expressiva em um item de menor participação pode afetar a percepção dos consumidores e estimular a substituição por outros produtos da cesta básica.

Por isso, é necessário separar o efeito da sazonalidade dos alimentos da dinâmica dos itens de maior peso no grupo de alimentação. A maior oferta de alternativas pode suavizar o impacto médio, mas não impede que determinados produtos sofram aumentos relevantes em momentos de quebra de safra ou dificuldade de transporte.

Confinamento também reduziu a oscilação da carne bovina

A transformação da pecuária é outro fator que ajudou a diminuir a variação sazonal dos preços. Segundo Heron, a expansão do confinamento reduziu a dependência da criação extensiva em relação às pastagens. No passado, a menor disponibilidade de pasto durante o inverno diminuía a oferta e afetava o peso do gado, contribuindo para a alta da carne bovina.

Esse padrão anual perdeu força, mas os ciclos pecuários de longo prazo continuam existindo. Eles resultam de mudanças na oferta: quando os preços caem, o abate de matrizes pode aumentar, aprofundando a queda no início e criando, mais adiante, condições para uma escassez que impulsiona as cotações.

O que consumidores e investidores devem acompanhar

A inovação agrícola tende a tornar a inflação de alimentos menos dependente das estações, mas o resultado continua sujeito a choques extremos e à situação internacional. Conflitos entre Rússia e Ucrânia, instabilidades no Oriente Médio e o uso de tarifas como instrumento de política externa podem alterar custos, rotas de comércio e disponibilidade de produtos, mascarando o padrão sazonal tradicional.

Para quem consome, isso significa que a tecnologia pode reduzir a frequência de altas provocadas por problemas climáticos locais, sem garantir preços estáveis. Para quem acompanha a economia e os mercados, a evolução das safras, das condições climáticas, da logística e do comércio global segue importante para entender o comportamento da inflação e dos custos do setor agropecuário.

Impacto para a sociedade

A maior resistência das lavouras pode reduzir oscilações sazonais nos preços de alimentos como frutas, batatas, tomates e milho, ajudando a conter pressões sobre o custo de vida. O efeito não elimina aumentos provocados por eventos climáticos extremos, guerras, tarifas ou problemas de logística, mas pode tornar a oferta mais regular e previsível para consumidores e produtores.