O Brasil precisa deixar de exportar apenas commodities e passar a vender ao mundo tecnologias verdes, defendeu Guilherme Brammer, primeiro brasileiro a integrar o conselho de clima e natureza do Fórum Econômico Mundial. Como parte dessa estratégia, o empreendedor anunciou a criação da Uthope, startup que pretende conectar patentes e soluções brasileiras a grandes compradores e ao mercado financeiro.
Uthope quer aproximar invenções brasileiras de compradores
A nova empresa tem lançamento previsto para 6 de outubro de 2026, em São Paulo. A proposta é identificar soluções e empreendedores de impacto que já estejam prontos para crescer e conectá-los a empresas interessadas em comprar essas tecnologias e a investidores capazes de financiar a expansão.
O foco inclui áreas nas quais o Brasil já possui ativos relevantes, como transição energética, segurança alimentar, acesso à água e bioeconomia. Na avaliação de Brammer, existe demanda internacional por essas soluções, mas o país ainda transforma poucas de suas patentes em negócios escaláveis e exportáveis.
O gargalo está na conexão entre três grupos
A tese defendida pelo empreendedor é a de um “triângulo quebrado”, formado por empreendedores de impacto, grandes empresas compradoras e o mercado financeiro. Esses três grupos são necessários para transformar uma invenção em produto, mas frequentemente não conseguem trabalhar de forma coordenada.
O empreendedor pode ter dificuldade para apresentar sua solução comercialmente. A grande empresa, por sua vez, nem sempre sabe encontrar ou avaliar uma tecnologia emergente. Já o mercado financeiro tende a ser mais cauteloso diante de riscos tecnológicos, regulatórios e de execução. A Uthope pretende atuar justamente nessa intermediação.
Brasil tem inovação, mas ainda exporta pouco conhecimento
Para Brammer, o país construiu uma trajetória de exportação concentrada em commodities, enquanto a venda de tecnologia e propriedade intelectual continua limitada. A consequência é que parte do valor econômico criado por pesquisadores e empresas brasileiras não se converte em produção, receita externa e novos empregos qualificados no país.
Exportar uma tecnologia verde significa vender não apenas um bem físico, mas também conhecimento, processos, patentes e serviços associados. Esse modelo pode gerar maior participação das empresas brasileiras em cadeias globais e reduzir a dependência de produtos básicos, embora exija capital, capacidade industrial e compradores dispostos a adotar as soluções.
Iniciativa também busca levar empresas brasileiras a Davos
A atuação de Brammer não ficará restrita à nova startup. Ele pretende abrir para empresas brasileiras as portas do ecossistema internacional do Fórum Econômico Mundial, levando-as a encontros estratégicos, como o realizado na China em junho, conhecido como Davos de Verão.
O conselheiro afirma que passou a priorizar esse encontro por considerar que ele discute tendências para os próximos dez anos, e não apenas os acontecimentos do ano corrente. A iniciativa ocorre após a renovação, por mais um ano, de seu mandato no conselho de clima e natureza do fórum.
O que a iniciativa pode mudar para empresas e investidores
Na prática, a Uthope tenta reduzir a distância entre uma solução ambiental promissora e sua aplicação em escala. Se conseguir conectar patentes a compradores e financiamento, poderá facilitar a transformação de pesquisa em produtos, contratos comerciais e negócios voltados a mercados internacionais.
O próximo passo será o lançamento da startup em outubro e a formação dessa rede de empresas, investidores e empreendedores. O resultado dependerá da capacidade de validar as tecnologias, encontrar demanda e atrair recursos para projetos que costumam envolver prazos longos e riscos maiores do que os de negócios tradicionais.
