Empresas brasileiras de tecnologia climática querem atrair investimentos para a transição ecológica e levaram 40 demandas a candidatos à Presidência. Entre as propostas do Fórum Brasileiro das Climatechs (FBC) estão adaptar linhas públicas de financiamento para atender negócios menores e garantir que o dinheiro anunciado chegue às empresas. A discussão importa porque essas companhias podem disputar parte dos recursos previstos para a transformação da economia.
Financiamentos precisam aceitar riscos de inovação
O FBC, criado no início de 2025, identificou cerca de 500 climatechs em operação no país, em oito segmentos da economia. A entidade tem 40 empresas associadas, que movimentam juntas entre R$ 5 bilhões e R$ 8 bilhões. Climatechs são empresas que desenvolvem tecnologias ou soluções para enfrentar as mudanças climáticas.
O principal pedido aos candidatos é criar novas formas de financiamento. Uma das sugestões é direcionar um mecanismo do Eco Invest Brasil especificamente a essas empresas. O diretor executivo do Fórum, Zé Gustavo, defende que os recursos destinados a investimentos em participação societária possam aceitar mais risco. Nesse tipo de operação, o investidor coloca dinheiro na empresa em troca de uma participação, em vez de conceder apenas um empréstimo.
A demanda se relaciona ao perfil de negócios que ainda estão desenvolvendo e testando soluções. Para essas empresas, o acesso a capital pode depender de investidores dispostos a aceitar incertezas e prazos de validação mais longos. O Fórum também pede medidas para evitar que recursos destinados a fundos climáticos sejam bloqueados ou reduzidos em contingenciamentos.
Limite do Fundo Clima pode excluir negócios menores
Outra proposta é permitir que o Fundo Clima financie operações abaixo de R$ 20 milhões, patamar mínimo indicado atualmente no site do BNDES. O banco é o agente financeiro do fundo, gerido pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Na avaliação do FBC, mecanismos existentes foram desenhados sobretudo para projetos grandes.
Isso pode deixar de fora empresas em expansão que precisam de quantias menores e de mais tempo para testar e validar seus produtos. A diretora executiva do Fórum, Ana Himmelstein, afirma que esse vazio de financiamento pode impedir que negócios avancem. A entidade diz que a proposta não é substituir as linhas existentes, mas ampliar as opções disponíveis.
Dinheiro anunciado não é o mesmo que recurso aplicado
Segundo dados apresentados pelo Fórum, mais de R$ 373 bilhões foram mobilizados, contratados ou comprometidos nos últimos dois anos para projetos ligados à transição ecológica. Mas há uma diferença entre esses valores e o dinheiro que efetivamente chega às empresas. No Eco Invest, por exemplo, foram mobilizados mais de R$ 140 bilhões, enquanto R$ 14 bilhões aparecem registrados em operações firmadas.
Os números representam etapas diferentes: mobilizar recursos não significa que todo o montante já tenha sido contratado ou investido em empresas. Para o FBC, o desafio é melhorar o acompanhamento da execução e verificar se o capital cumpre a finalidade prevista. A entidade argumenta que a questão central já não é apenas encontrar dinheiro, mas fazer com que ele alcance os projetos.
Transição climática exige investimentos de longo prazo
Um estudo do Boston Consulting Group de 2024 estima que a transição climática exigirá investimentos globais anuais entre US$ 2,6 trilhões e US$ 3 trilhões até 2050. Esse valor é uma estimativa para o conjunto da economia mundial, não um montante reservado ao Brasil ou às climatechs brasileiras. O setor quer disputar uma parcela desses recursos com soluções desenvolvidas no país.
O documento do Fórum também propõe maior articulação com o Congresso. A entidade tem uma audiência pública prevista na Comissão de Ciência e Tecnologia para depois das eleições, quando os novos parlamentares já estiverem eleitos. Para quem acompanha o tema, o próximo passo será observar se as propostas se convertem em regras de financiamento e em operações efetivamente acessíveis às empresas — e não apenas em compromissos de recursos.
