A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) manteve em 1,2% a projeção de crescimento do setor em 2026, mesmo com a piora da confiança dos empresários e a Selic elevada. O dado novo indica que a expansão deverá continuar, mas cada vez mais sustentada por obras de infraestrutura do que pelo mercado imobiliário tradicional, mais dependente de crédito.
Infraestrutura passa a liderar a criação de empregos
Entre janeiro e junho, a construção civil abriu 168.962 vagas formais, alta de 6,5% em relação ao primeiro semestre de 2025. Pela primeira vez desde o início da série histórica do Novo Caged, em 2020, a infraestrutura gerou mais empregos no primeiro semestre do que a construção de edifícios.
As obras de infraestrutura criaram 64.793 postos no período, avanço de 30,3% na comparação anual. Já a construção de edifícios abriu 60.552 vagas, queda de 2,19%, enquanto os serviços especializados para construção registraram 43.617 contratações, recuo de 7,14%.
Na avaliação da CBIC, concessões, Parcerias Público-Privadas (PPPs) e investimentos em saneamento vêm compensando parte da fraqueza dos segmentos mais expostos ao financiamento imobiliário. Dados da ABDIB citados pela entidade indicam que 84% dos investimentos em infraestrutura têm origem privada.
Juros altos reduzem demanda e investimento
A Selic em patamar elevado afeta a construção por dois canais principais. Para as famílias, aumenta o custo das parcelas de financiamentos e reduz a capacidade de assumir novas dívidas, o que limita a compra de imóveis, as reformas e o consumo de materiais de construção.
Para as empresas, o crédito mais caro encarece o financiamento de terrenos, obras e máquinas. A taxa também torna aplicações de renda fixa mais atrativas em relação a projetos de retorno mais demorado, dificultando decisões de investimento e o lançamento de novos empreendimentos.
A produção de insumos típicos da construção recuou 4,1% entre janeiro e maio, ante o mesmo período de 2025. As vendas do varejo de materiais de construção caíram 1% na mesma base de comparação.
Confiança chega ao menor nível desde 2016
O Índice de Confiança do Empresário da Construção terminou o primeiro semestre em 47,2 pontos. Como resultados abaixo de 50 indicam falta de confiança, o indicador mostra um ambiente de cautela e atingiu o menor nível desde 2016.
A média do indicador de nível de atividade ficou em 46,4 pontos nos seis primeiros meses de 2026, também o menor patamar desde 2020. Para Marcelo Azevedo, da CNI, o risco está na persistência da falta de confiança, que pode afetar investimentos, contratações e lançamentos.
Crédito imobiliário teve recuperação no semestre
Apesar da pressão dos juros, o financiamento imobiliário somou R$ 160,3 bilhões entre janeiro e junho, considerando recursos do FGTS e do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). O volume representa alta de 17,5% sobre o primeiro semestre de 2025.
O SBPE, principal fonte de crédito para imóveis de mercado, foi o destaque da recuperação. O resultado reflete operações contratadas anteriormente e mostra que a demanda ainda existe, embora a CBIC ressalte que o ambiente de juros limita a continuidade desse movimento.
O que observar até o fim de 2026
A manutenção da projeção de 1,2% depende da continuidade das obras de infraestrutura e da execução dos lançamentos imobiliários realizados nos dois últimos anos. Assim, a taxa de crescimento pode permanecer positiva mesmo com indicadores de confiança e atividade abaixo do nível considerado favorável.
Para quem trabalha no setor, a infraestrutura hoje oferece o principal suporte às contratações. Para consumidores, a Selic continua determinando o custo do financiamento e das reformas. Já para quem investe, os dados mostram uma economia setorial dividida: empresas ligadas a concessões e saneamento encontram mais sustentação, enquanto negócios dependentes do crédito imobiliário enfrentam maior pressão.
Impacto para a sociedade
O desempenho da construção afeta diretamente a geração de empregos formais e a oferta de moradias e obras de infraestrutura. Ao mesmo tempo, a Selic elevada encarece financiamentos imobiliários, limita reformas e reduz o consumo de materiais, enquanto os investimentos em saneamento e concessões sustentam parte das contratações no setor.
