O carry trade, estratégia que busca lucrar com a diferença entre juros baixos em um país e altos em outro, está mudando de configuração no mercado global. O iene continua relevante como moeda de financiamento, mas intervenções do Japão e a maior volatilidade cambial têm levado investidores a diversificar as fontes de recursos. Para o Brasil, isso mantém a entrada potencial de capital atraída pela Selic de 14% ao ano, mas torna o comportamento do real mais dependente de decisões tomadas em outros países.
Como funciona o carry trade e onde está o risco
A operação consiste em tomar dinheiro emprestado em uma moeda com juros baixos e aplicar os recursos em ativos ou países que oferecem remuneração maior. Um investidor que capta a 1% ao ano e aplica a 14%, por exemplo, pode obter a diferença entre as duas taxas enquanto o câmbio permanecer relativamente estável.
O risco principal, porém, não está apenas nos juros. Se a moeda usada no empréstimo se valorizar, será preciso comprar essa moeda mais cara para quitar a dívida. Nesse cenário, o ganho obtido com a aplicação pode ser reduzido ou até transformado em prejuízo. É por isso que mudanças bruscas no câmbio podem desfazer rapidamente uma estratégia que parecia rentável.
Por que o iene perdeu parte do protagonismo
Durante quase duas décadas, o iene foi uma das principais moedas de financiamento porque o Japão manteve taxas próximas de zero. A desvalorização da moeda e as tentativas do Banco do Japão de conter esse movimento, incluindo uma intervenção cambial conjunta com os Estados Unidos, aumentaram a percepção de risco.
Isso não significa que o iene tenha deixado de ser usado. A mudança é que o mercado está distribuindo a operação entre diferentes moedas, reduzindo a dependência de uma única origem de recursos. Essa fragmentação torna mais complexa a leitura dos fluxos, porque um movimento em qualquer uma das moedas financiadoras pode afetar posições montadas em países de juros elevados.
Selic elevada mantém o real no radar
O Brasil continua entre os destinos mais atraentes para esse tipo de operação porque oferece juros altos. A Selic está em 14% e, de acordo com a avaliação de Shin Fukui, gestor e sócio da Stratton Capital, o real permaneceu relativamente estável em 2025 e 2026, mesmo em um ambiente de taxas elevadas.
Essa combinação favorece investimentos de portfólio, incluindo operações de carry trade. Na prática, o dinheiro estrangeiro pode aumentar a demanda por ativos brasileiros e ajudar a sustentar o real. O efeito, entretanto, depende da permanência do diferencial de juros e da confiança de que a taxa de câmbio não sofrerá uma mudança abrupta.
Franco suíço surge como alternativa, mas traz riscos
Com a diversificação das moedas de financiamento, o franco suíço aparece como uma das alternativas mais citadas ao iene. A Suíça tem taxa de juros zerada, o que reduz o custo de captação e permite a montagem de operações semelhantes.
O problema é que o franco tem características próprias e pode se valorizar em momentos de estresse nos mercados. Assim, uma moeda barata para tomar emprestada também pode gerar perdas relevantes caso investidores busquem segurança e aumentem a procura por ela. Outras decisões de bancos centrais, como os do Japão, da zona do euro e da Suíça, passam a influenciar indiretamente ativos brasileiros.
O que pode limitar o benefício para o Brasil
Felipe Marques de Oliveira, advisor sênior da Blue3 Investimentos, afirma que a fragmentação aumenta a complexidade do monitoramento dos fluxos. O real deixa de responder somente ao diferencial entre os juros brasileiros e estrangeiros e passa a reagir também a choques específicos em qualquer etapa da operação.
Luís Ferreira, CIO para as Américas do EFG, acrescenta que os déficits fiscal, primário e em conta corrente persistentes podem manter o real em níveis mais depreciados do que o consenso de mercado, atualmente em R$ 5,15. Para quem investe, o ponto central é que a Selic elevada continua oferecendo suporte ao Brasil, mas não elimina o risco cambial nem a influência das decisões globais sobre os preços dos ativos locais.
