O BTG Pactual classificou como preocupante o balanço do Banco do Brasil (BBAS3) no segundo trimestre de 2026 e avalia que uma nova revisão para baixo das projeções de lucro é apenas uma questão de tempo. Para o banco de investimento, a deterioração dos ativos, a cobertura menor para perdas e a pressão sobre o patrimônio deixaram o BB com pouca margem para novos erros, apesar de o lucro ter vindo acima das expectativas.
Lucro de R$ 3,9 bilhões não conta toda a história
O Banco do Brasil registrou lucro líquido recorrente de R$ 3,9 bilhões no 2T26, alta de 3,3% em relação ao mesmo trimestre de 2025, conforme os dados mais recentes. O ROAE, indicador que mede o retorno sobre o patrimônio médio, ficou em 8,3% e superou as estimativas dos analistas.
O problema, na avaliação do BTG, está menos no resultado final e mais no caminho percorrido para alcançá-lo. O lucro foi favorecido por uma contribuição de R$ 258 milhões na linha de imposto de renda, relacionada ao pagamento de juros sobre capital próprio. Além disso, o banco retirou do resultado gerencial R$ 733 milhões em despesas extraordinárias ligadas aos chamados planos econômicos.
Como essas despesas aparecem há anos nos balanços do BB, o BTG considerou difícil classificá-las como efetivamente não recorrentes. Isso reduz a qualidade do lucro e torna mais cautelosa a leitura sobre a capacidade de o banco repetir o desempenho nos próximos trimestres.
Inadimplência avança em pessoas físicas e empresas
A principal preocupação está na qualidade do crédito, isto é, na capacidade de os clientes pagarem os empréstimos. A inadimplência acima de 90 dias na carteira total subiu para 5,61%. Na pessoa física, o indicador avançou 159 pontos-base, ou 1,59 ponto percentual, chegando a 8,41%.
O aumento foi especialmente forte em cartões de crédito e outras linhas sem garantia. A inadimplência acima de 90 dias nos cartões dobrou, para 14,6%, enquanto a formação de novos inadimplentes mais que dobrou na carteira de pessoas físicas.
Nas empresas, o índice subiu 31 pontos-base, para 3,2%. Entre micro, pequenas e médias empresas, avançou 94 pontos-base, atingindo 9,7%. Para o BTG, a magnitude da piora nesses segmentos foi relevante e mostra que o risco deixou de estar concentrado apenas no agronegócio.
Provisões menores deixam menos proteção para o semestre
Provisões são valores separados pelo banco para absorver possíveis perdas com empréstimos que não serão pagos. No trimestre, a despesa ficou abaixo da formação de créditos em Estágio 3, classificação que reúne operações com problemas mais graves de pagamento.
Na prática, isso significa que as provisões não acompanharam integralmente a velocidade de surgimento de novos créditos problemáticos. A cobertura menor ajudou a preservar o lucro no curto prazo, mas deixou menos proteção caso a inadimplência continue avançando no segundo semestre.
O agro ainda é uma fonte importante de risco. Embora a inadimplência acima de 90 dias tenha mostrado alguma estabilização, os indicadores de curto prazo pioraram. O BTG avalia que a renegociação das dívidas rurais está demorando mais do que o esperado, tornando a recuperação da carteira mais lenta, menos linear e mais incerta.
Guidance pode ser revisado novamente
Em março, o BB reduziu sua projeção de lucro líquido ajustado para 2026 de uma faixa entre R$ 22 bilhões e R$ 26 bilhões para R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões. O corte foi de 17% no ponto médio da estimativa.
Agora, o BTG vê risco de nova redução porque as provisões estão acima da faixa projetada, o lucro acumulado segue significativamente abaixo do guidance — a projeção oficial — e os indicadores do balanço continuam se deteriorando. Os analistas também citaram a demora para os benefícios da Medida Provisória 1.376 aparecerem nos resultados.
Ação cai, mas BTG mantém recomendação neutra
As ações BBAS3 chegaram a recuar mais de 2% na mínima do pregão desta quinta-feira (13). Por volta das 11h40, os papéis caíam 1,37%, a R$ 18,74. Desde o início do ano, a desvalorização acumulada supera 15%.
O BTG manteve recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 25, equivalente a um potencial de valorização de 31,6% sobre o fechamento anterior. A instituição reconhece a força da franquia e o esforço da administração para reverter a situação, mas afirma que a visibilidade continua baixa.
Para quem acompanha o papel, os próximos pontos de atenção são a evolução da inadimplência fora do agro, o ritmo das renegociações rurais, o nível de provisões e eventual revisão do guidance. Esses fatores devem continuar determinando a percepção de risco do banco e a reação das ações no curto prazo.
