O BTG Pactual manteve a recomendação de compra para as ações da Vale (VALE3), com preço-alvo de R$ 90, mas alertou que a tese enfrenta escassez de catalisadores capazes de impulsionar rapidamente os papéis. Para o banco, a mineradora continua bem administrada, relativamente barata e com perfil defensivo, embora o momento de resultados seja menos favorável e o interesse dos investidores locais permaneça limitado.
Por que o BTG vê uma ação defensiva e lateralizada
Na avaliação do BTG, a Vale oferece uma alternativa de menor preço em comparação com grandes pares australianos. A diferença chega a aproximadamente 4 pontos percentuais no rendimento e a um desconto de 20% a 40% nos múltiplos, que são indicadores usados para comparar o valor de uma empresa com seus lucros, receita ou geração de caixa.
Esse desconto ajuda a explicar o interesse maior de investidores estrangeiros, enquanto a demanda entre os investidores brasileiros segue relativamente baixa. Ainda assim, o banco afirma ter dificuldade para identificar eventos de curto prazo que provoquem uma rápida reavaliação da ação. Nesse cenário, a Vale se aproxima mais de um investimento defensivo e lateralizado, com retornos de caixa estimados em torno de 8%, do que de uma tese de forte crescimento imediato.
Minério de ferro e custos pressionam o desempenho
O preço à vista do minério de ferro estava próximo de US$ 95 por tonelada, abaixo dos US$ 100 projetados pelo BTG. A diferença reduz a receita potencial da mineradora e ajuda a desacelerar o crescimento dos resultados, especialmente porque o minério continua sendo um dos principais negócios da companhia.
Também há pressão sobre o custo caixa C1, métrica que indica quanto a empresa gasta para produzir e entregar uma tonelada do minério. Diesel, câmbio e despesas de manutenção estão entre os fatores que devem pesar nos números de curto prazo. O banco, porém, considera essas pressões majoritariamente externas, sem evidência de deterioração na execução operacional da Vale.
Resultado do segundo trimestre mostra efeito da pressão
No segundo trimestre de 2026, a Vale registrou lucro líquido de R$ 6,847 bilhões, queda de 43,3% em relação aos R$ 12,081 bilhões do mesmo período de 2025. O EBITDA ajustado, indicador de geração operacional de caixa antes de juros, impostos, depreciação e amortização, recuou 3,3% na comparação anual, para R$ 18,516 bilhões.
A receita líquida, por outro lado, avançou 6,4% em um ano, para R$ 53,012 bilhões, impulsionada pelo desempenho da divisão de metais básicos. O contraste entre aumento de receita e queda do lucro mostra como custos, preços e rentabilidade podem afetar o resultado final mesmo quando a empresa vende mais.
Cobre é promessa de longo prazo, mas ainda não move a tese
O BTG considera sólida a execução da Vale em metais básicos e vê potencial de alta no cobre. A empresa espera aproximadamente dobrar sua capacidade de produção do metal para cerca de 500 mil toneladas até 2030, com possibilidade de alcançar aproximadamente 700 mil toneladas até 2035.
O problema é que os investidores ainda não enxergam a Vale principalmente como uma produtora de cobre. Assim, os avanços nessa divisão ainda são compensados pela fraqueza do minério de ferro. A ação também já recuou cerca de 20% desde as máximas de abril, o que melhorou sua avaliação de preço, mas não eliminou a falta de gatilhos imediatos.
O que acompanhar antes dos próximos resultados
O BTG revisou seu modelo após os números do segundo trimestre, incorporando mudanças nas projeções de câmbio, custos e lucros de metais básicos. Para os próximos meses, os principais pontos de atenção são a trajetória do minério de ferro, a evolução dos custos operacionais e a capacidade de a Vale transformar o crescimento do cobre em uma percepção concreta de valor.
Para quem investe, a leitura combina potencial de valorização com espera mais longa: a recomendação e o preço-alvo foram mantidos, mas o banco não identifica um catalisador claro para uma alta rápida. A decisão, portanto, depende da avaliação individual sobre os riscos dos resultados de curto prazo e sobre a capacidade de a estratégia em cobre sustentar a tese no longo prazo.
