A Braskem (BRKM5) caiu 6,57%, para R$ 3,84, por volta das 13h11 desta quarta-feira (26), no primeiro pregão depois de deixar o Ibovespa. A ação está entre as maiores quedas da B3 e já acumula recuo superior a 36% em agosto, em meio às dúvidas sobre a reestruturação das dívidas e ao aumento dos juros futuros.

Queda não é explicada apenas pela saída do índice

A retirada do Ibovespa marca uma mudança importante na negociação do papel, mas, na avaliação do economista Gustavo Bertotti, a baixa desta quarta-feira não deve ser atribuída diretamente a esse evento. Para ele, o movimento reúne fatores que já vinham pressionando a petroquímica nas últimas sessões.

O principal deles é a combinação de fundamentos enfraquecidos, elevada dívida e incerteza sobre o processo de recuperação extrajudicial. A saída do índice ocorreu justamente em um momento em que os investidores buscam informações mais claras sobre a capacidade de a companhia reorganizar suas obrigações financeiras.

Por que os juros pesam sobre a Braskem

A abertura da curva de juros — isto é, a alta das taxas negociadas para prazos futuros — aumenta o custo de novas captações e torna mais pesada a dívida de empresas alavancadas. Também reduz o valor presente dos resultados esperados, o que tende a pressionar ações de companhias cuja recuperação depende de geração de caixa ao longo do tempo.

No caso da Braskem, esse efeito se soma à necessidade de renegociar compromissos com credores. Quanto maior a percepção de risco e o custo do dinheiro, mais difícil fica preservar uma estrutura financeira sustentável sem mudanças relevantes na dívida ou no capital da empresa.

Recuperação extrajudicial concentra atenção dos investidores

A companhia confirmou na segunda-feira (24) o pedido de recuperação extrajudicial, com adesão inicial de 39,6% dos credores. A dívida envolvida soma US$ 10,9 bilhões. O mecanismo permite negociar um plano com os credores fora de um processo de recuperação judicial, mas depende de adesão suficiente para avançar.

A Braskem deve contar com mais 90 dias de proteção enquanto estrutura uma proposta final. Para que o plano seja aprovado, será necessária a adesão de 50% mais um dos credores. Até lá, a falta de definição mantém elevada a incerteza sobre o futuro financeiro e operacional da companhia.

Alternativas podem reduzir a participação dos acionistas

Entre as possibilidades discutidas para a reestruturação estão novos aportes de capital, uma oferta subsequente de ações e a conversão de dívida em participação acionária. Cada alternativa tem efeitos diferentes, mas todas podem alterar a posição dos atuais acionistas.

A conversão de dívida em ações, por exemplo, transforma credores em sócios e aumenta a quantidade de papéis em circulação. Já uma oferta de ações pode exigir que os investidores atuais coloquem mais recursos para evitar perda proporcional de participação. Analistas do Bradesco BBI avaliam que a Braskem precisa reduzir a dívida líquida entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões para alcançar uma estrutura de capital sustentável, o que deve resultar em diluição relevante para os acionistas existentes.

O que acompanhar depois da queda

Um dos pontos em negociação é a possível ampliação do limite de crédito comercial da Braskem com a Petrobras, no valor de R$ 2,35 bilhões. A medida poderia ajudar o funcionamento da companhia, mas não resolve, por si só, o problema mais amplo de endividamento nem substitui um acordo definitivo com os credores.

Para quem acompanha BRKM5, os próximos eventos mais relevantes são a evolução das adesões ao plano, os termos da reestruturação e a definição sobre eventual aporte, emissão de ações ou conversão de dívida. A forte queda desta quarta-feira mostra que o mercado continua precificando um cenário de alto risco, mas o desfecho dependerá das condições negociadas nos próximos 90 dias.