A BrasilAgro (AGRO3) registrou prejuízo líquido de R$ 13,943 milhões no quarto trimestre da safra 2025/2026, encerrado no 4T26, revertendo o lucro de R$ 61,281 milhões apurado no mesmo período do ano anterior. O resultado mostra como a dificuldade para colher e entregar cana-de-açúcar dentro do trimestre, além da ausência de vendas de fazendas e dos juros elevados, afetou o desempenho da companhia.

Receita e geração de caixa também recuaram

A receita líquida caiu 25% na comparação anual, de R$ 340 milhões no 4T25 para R$ 255 milhões no 4T26. O recuo indica que a empresa reconheceu menos vendas no período, principalmente porque parte da produção de cana ficou para o trimestre seguinte.

O Ebitda ajustado, indicador que aproxima a geração de caixa operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização, recuou 21%, de R$ 72 milhões para R$ 56 milhões. Na cana-de-açúcar, a margem bruta caiu de 12% para 10%, uma redução de dois pontos percentuais em relação ao mesmo trimestre da safra anterior.

Volume de cana colhida ficou abaixo do esperado

De acordo com o CEO André Guillaumon, a BrasilAgro normalmente esperava colher entre 500 mil e 600 mil toneladas de cana no quarto trimestre. O volume efetivamente colhido ficou próximo de 280 mil toneladas, deixando uma parcela da produção para ser contabilizada no trimestre seguinte.

Esse adiamento não elimina necessariamente a receita, mas muda o momento em que a companhia reconhece a venda e os resultados associados à produção. Por isso, a cana que não entrou no 4T26 poderá contribuir para o desempenho do próximo trimestre, embora o resultado anual já tenha sido prejudicado pela postergação.

Ausência de venda de fazendas pesou no exercício

A BrasilAgro encerrou o exercício sem concluir a venda de propriedades no Brasil, algo que não acontecia desde 2016. A monetização de terras é uma parte importante do modelo de negócios da companhia e ajudou a tornar a comparação com o ano anterior mais desfavorável.

Além da menor atividade operacional, os juros elevados pressionaram o resultado acumulado. O custo financeiro reduz o lucro porque aumenta a despesa para empresas endividadas e também encarece decisões de investimento e aquisição de terras. No agronegócio, esse efeito se soma ao ciclo de preços, clima e comercialização das safras.

CEO prevê retomada das vendas no próximo ciclo

Guillaumon afirmou que a empresa pretende voltar a vender fazendas no novo exercício e que essa meta já foi discutida com o Conselho de Administração. A declaração, porém, se refere ao próximo ano e não representa uma garantia de que uma operação será concluída já no trimestre seguinte.

Nos últimos quatro a cinco anos, a BrasilAgro vendeu mais de R$ 2 bilhões em propriedades. O executivo disse que a companhia não espera necessariamente repetir esse volume no próximo período, pois pretende adotar uma estratégia anticíclica: vender quando outros participantes estão comprando e comprar quando o mercado está pressionado.

Margens da cana podem melhorar, mas sem repetir o pico

Para o novo ciclo, a companhia trabalha com a expectativa de que o açúcar próximo de US$ 0,17 por libra-peso e o etanol entre R$ 2,70 e R$ 2,80 por litro permitam a recuperação das margens históricas da cana, estimadas em cerca de R$ 2,5 mil por hectare.

A administração, no entanto, não projeta o retorno das margens excepcionais de R$ 5 mil a R$ 6 mil por hectare observadas dois ou três anos atrás. O avanço do etanol de milho é apontado como um dos fatores que limitam essa recuperação. Para quem acompanha AGRO3, os próximos resultados dependerão da entrega da cana postergada, da eventual venda de propriedades e da capacidade de aproveitar oportunidades de aquisição em um ambiente de maior pressão financeira no setor.