O Brasil passou a disputar uma posição na corrida global pelo combustível sustentável de aviação (SAF), mercado que combina transição energética, tecnologia e investimentos. Com potencial estimado para produzir cerca de 60 milhões de toneladas de SAF em 2050, o país reúne biomassa, experiência em biocombustíveis e agricultura em escala, mas ainda precisa transformar essas vantagens em valor industrial, tecnológico e financeiro dentro do próprio território.

Por que o SAF se tornou estratégico para a aviação

O SAF ainda representa menos de 1% do combustível consumido pela aviação mundial, mas é considerado a principal alternativa disponível para reduzir as emissões de voos de médio e longo alcance nas próximas décadas. A eletrificação, embora avance em outros meios de transporte, permanece distante de uma aplicação ampla em aeronaves maiores.

Essa limitação tecnológica faz com que o combustível sustentável deixe de ser apenas uma pauta ambiental. Países e empresas passaram a disputar capacidade produtiva, acesso a matérias-primas, tecnologia, certificações e canais de comercialização. A aviação também é tratada como um setor estratégico por sua relação com comércio, logística e resiliência energética.

O que coloca o Brasil na disputa internacional

Poucas economias combinam disponibilidade de biomassa, produção agrícola competitiva, conhecimento acumulado em biocombustíveis e possibilidade de expansão em escala comparável à brasileira. Essa combinação pode atrair investimentos para novas usinas e cadeias de fornecimento voltadas ao mercado de aviação.

A estimativa de potencial para 2050, porém, não significa que o país capturará automaticamente os ganhos da nova indústria. O desafio é evitar que o Brasil fique restrito ao fornecimento de recursos naturais, enquanto a transformação industrial, a tecnologia, a certificação, o financiamento e a venda do combustível sejam controlados por outros mercados.

Como a regra brasileira cria demanda para o combustível

A Lei do Combustível do Futuro estabeleceu metas de redução de emissões para as operações domésticas de aviação a partir de 2027. Em vez de exigir apenas uma quantidade fixa de SAF misturada ao combustível convencional, o modelo prioriza a redução efetiva das emissões.

Na prática, esse desenho pode favorecer matérias-primas e rotas tecnológicas com menor intensidade de carbono. Também cria um sinal regulatório para empresas que avaliam investimentos, porque a demanda futura passa a estar associada ao desempenho ambiental do combustível, e não somente ao seu volume.

Por que a certificação será decisiva

Um dos mecanismos em discussão é o Book & Claim, que permite separar o atributo ambiental do SAF de sua localização física. Assim, o combustível pode ser usado onde a logística for mais eficiente, enquanto o benefício ambiental é comprado e contabilizado por empresas em outras partes da cadeia.

Para funcionar, o sistema dependerá de registros confiáveis, verificação independente e regras que impeçam a dupla contagem dos benefícios. A solução pode ser especialmente relevante para o Brasil, devido às suas dimensões continentais, mas também amplia a necessidade de padrões reconhecidos internacionalmente.

O que observar nos próximos passos

A corrida pelo SAF já envolve União Europeia, Estados Unidos, Singapura e outros mercados, que adotam metas, incentivos econômicos e mecanismos comerciais para estimular a produção e garantir acesso futuro às matérias-primas. A competição, portanto, não será apenas entre usinas, mas entre diferentes ambientes regulatórios e modelos de negócio.

Para investidores, empresas e trabalhadores, o desenvolvimento do setor deve ser acompanhado pela capacidade brasileira de agregar tecnologia e serviços à produção. O avanço das regras, a definição dos mecanismos de certificação e a formação de cadeias industriais locais serão determinantes para saber quanto da riqueza gerada pelo SAF permanecerá no país.